15 de mai de 2009

Platoon

Título original: Platoon
Direção: Oliver Stone
Elenco: Charlie Sheen, William Dafoe, Tom Berenger, Forest Whitaker, Johnny Depp
País: Grã Bretanha e EUA
Ano: 1986
Duração: 120 minutos
Língua: Inglês e vietnamita
Nota IMDb: 8,2
Cores: Colorido






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Máquina de Moer Jovens

Já se falou muito do Vietnã, mas poucos souberam falar como Oliver Stone. A frase de abertura de Platoon, citando Eclesiastes, alerta os jovens para se regozijarem na sua juventude. Não é à toa: o Vietnã foi uma verdadeira máquina de transformar jovens em soldados, algo que transformaria suas vidas de uma forma irreversível — para o bem e para o mal. Como diz a frase no trailer: "Na guerra, a primeira a perecer é a inocência".

Escrito e dirigido por Stone, um veterano, o filme acompanha a caminhada dos chamados grunts, os soldados da infantaria do Exército Americano, desde sua chegada ao Vietnã até a morte ou o retorno para casa. O típico pelotão americano é retratado como um grupo heterogêneo, onde conflitos e questões como poder, racismo e ideologia emergem. A linguagem mista anglo-franco-vietnamita é o dialeto padrão, talvez uma das únicas coisas em comum entre eles. Ali, convivem e transparecem os humanistas, os psicopatas, os drogados, os brutais. O mais impressionante da caracterização desses tipos humanos é que não há maniqueísmos: não há bons nem maus, apenas soldados aliados ou inimigos. E eles são levados ao limite. Para lidar com isso, alguns incorporam a violência à sua personalidade; outros recorrem às drogas. Mas todos fumam… e muito. Aliás, o cigarro, hoje politicamente incorreto, é um dos “personagens” mais freqüentes nos filmes de guerra.

Do ponto de vista técnico, vale a pena ver retratadas as missões search & destroy, em que os grunts queimavam aldeias para prevenir que os vietcongs usassem; além disso, há também uma ação de um “rato de túnel”, um soldado treinado para entrar nos túneis e caçar vietcongs apenas com uma lanterna e uma pistola. A fotografia do filme é muito bonita e as músicas alternam hits da época com uma trilha instrumental fantástica (destaque para o tema principal).

O elenco é primoroso, formado por atores que já estavam em destaque na época ou alçaram vôo anos depois, como Charlie Sheen, Johnny Depp, Tom Berenger, William Dafoe e Forest Whitaker. Eles passaram por um campo de treinamento no bom estilo de Dale Dye (consultor de inúmeros filmes). A crueza de Nascido para Matar e a sensibilidade de Platoon (e o primor estético de ambos) certamente serviram de referência não somente para outros filmes do Vietnã, mas para muitos filmes de guerra que vieram depois.


Heber Costa


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Radicais Mudanças

Se existe uma coisa que é colocada à prova em tempo de guerra é o idealismo e a racionalidade das pessoas. Muitos dos soldados entram com um sentimento e saem com outro, alguns nem conseguem sair vivos da guerra. O sofrimento dos soldados muitas vezes acaba não sendo físico, mas, sim, psicológico.

Durante a Guerra do Vietnã, muitos combatentes americanos chegaram ao sudeste asiático com um ideal de trazer a liberdade e a democracia àquele lugar “provinciano”. Com o passar dos dias, meses e anos, esse pensamento se transformou de forma radical: a sociedade passou a combater de forma severa a participação norte-americana no conflito e os soldados passaram a repensar a sua situação, alguns até mesmo passaram por uma espécie de metamorfose e de idealistas se transformaram em verdadeiras máquinas de matar, que agiam muitas vezes sem pensar nas conseqüências de seus atos.

O filme Platoon traz à tona exatamente essa visão, em que um recruta cheio de idealismo passa a observar a guerra de um ponto de vista que não imagina que seria possível, e o seu pensamento passa a se modificar com as batalhas e as perdas de soldados.

Questões como essas sempre são responsáveis por mudanças nos caminhos das guerras. No caso do Vietnã, isso se tornou um problema para o governo do Estados Unidos, que começou a sofrer forte oposição da opinião publica, pedindo que fossem retirados os seus soldados daquele “inferno” —coisa parecida, porém com menor intensidade, ocorreu após a vitória contra o Iraque e no Afeganistão.

Historicamente, podemos indagar se quem participa de uma guerra traz consigo uma boa parcela de responsabilidade em seu desenvolvimento e se muitas vezes são os responsáveis para que o desfecho não seja de forma pacifica, pois normalmente estão interessados que elas se prolonguem para que possam se tornar grandes personagens desse triste evento.

Adriano Almeida


5 de mai de 2009

Nascido Para Matar

Título original: Full Metal Jacket
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Matthew Modine, Adam Baldwin, Vincent D'Onofrio
País: Grã Bretanha e EUA
Ano: 1987
Duração: 116 minutos
Língua: Inglês e vietnamita
Nota IMDb: 8,3
Cores: Colorido







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A Guerra Que Não Acabou

Os fuzileiros navais (USMC) são conhecidos como uma das mais agressivas forças americanas. Seu treinamento extremamente rígido e seu condicionamento ideológico tornou-se alvo de polêmica. Essa elite terrestre das forças navais é a protagonista desse filme que é uma referência em termos de Guerra de Vietnã no cinema.

Baseado no livro de Gustav Hasford, Nascido para Matar é dividido em duas partes: o campo de treinamento e a guerra. A primeira parte retrata um treinamento brutal, que vem acompanhando de lavagem cerebral e humilhação. Até onde isso é verdade, ninguém sabe. Há argumentos que negam, outros que confirmam esse tipo de preparação para a guerra. Vê-se uma preocupação extrema em mostrar como se preparam os “assassinos” tanto filosófica quanto psicologicamente, mas desde o começo a ironia é um fator predominante: quando se trata de citar exemplos de bons fuzileiros, surge o nome de Charles Whitman (que matou 14 pessoas no Texas) e o de Lee Harvey Oswald. Um dos argumentos usados para provar que Oswald não poderia ter matado Kennedy (que ele atirou três vezes num carro em movimento em menos de 6 segundos) é justamente o que o sargento usa para provar o caráter super-humano dos marines. O comportamento do sargento-instrutor, aliás, é hilário de tão absurdo. Escatológico, ele mistura religiosidade e blasfêmia na tentativa de identificar quem são e o que fazem afinal os fuzileiros. Stanley Kubrick faz questão de debochar do sistema que engole tudo o que pode e vomita o que não absorve.

Há um corte abrupto entre as duas partes. A primeira termina com um choque, a segunda começa na placidez das ruas de Saigon. Há algumas pinceladas sobre as mentiras publicadas no Stars and Stripes (jornal das forças armadas) para levantar o moral das tropas. Aparece então a fantástica trilha sonora do filme, com clássicos dos anos 1960. Nessa segunda parte, é retratado um dos mais importantes acontecimentos históricos da guerra, que foi a
Ofensiva do Tet (30 de janeiro, ano-novo dos vietnamitas). Em 1968, os vietcongs armaram ataques coordenados em todo o país durante o Tet. Os alvos incluíram a embaixada americana em Saigon, a base dos fuzileiros em Khe Sahn e a cidade histórica de Hué. Embora não seja uma característica forte do filme, a ação começa na tentativa de repelir os ataques contra a base praieira de Da Nang (veja mapa) e depois segue a operação de retomada de Hué — esta última, uma das batalhas mais sangrentas da guerra. Usando na maior parte do tempo câmeras estáticas, Kubrick retrata ao seu modo a luta urbana nas ruas da cidade destroçada. Como alternativa à narração em off, ele usa um recurso de mise-en-abyme (um filme dentro do outro) para expor a opinião dos soldados, que àquela altura já tinham noção do rumo que a guerra tinha tomado.

No lado técnico, é impecável o uso do figurino, dos armamentos (note-se a evolução do M-14 nos treinos para o M-16 na guerra) e a reconstituição de operações e cenários. Já no conteúdo, ficam claras as críticas às políticas oficiais, à imprensa, aos aliados sul-vietnamitas e, claro, ao absurdo da guerra. Mesmo sendo uma superprodução, o filme não conta com nomes expressivos, exceto por Matthew Modine (onipresente nos anos 1980) e Adam Baldwin. Kubrick expressa em Nascido para Matar todo seu ressentimento para com uma guerra que para muitos nunca acabou.

Heber Costa

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Matar ou Enlouquecer

Entre os anos de 1959 e 1975 aconteceu uma das guerras mais comentadas da nossa contemporaneidade: a Guerra do Vietnã. Apesar de o conflito armado ter ocorrido no Sudeste Asiático, ele envolveu de forma muito contundente um país que se encontrava do outro lado do mundo — os Estados Unidos.

Muitos encaram a participação dos yankees com uma das muitas investidas infelizes na história das guerras, contudo existiam interesses mais importantes por trás da daquela intervenção militar, que seriam a primazia política e a econômica do Vietnã e a influência que isso poderia causar na região. Os americanos, porém, não mediram as implicações que tal ato teria na sua própria sociedade.

Entre as várias conseqüências, vale destacar a opinião pública com relação aos ocorridos com os soldados antes e durante a guerra, desde o seu alistamento até a sua forma de pensar durantes os combates — o filme Nascido Para Matar explora de forma muito clara os efeitos do treinamento severo e desumano que os fuzileiros navais norte-americanos passavam fazendo com que muitas vezes eles virassem verdadeiras máquinas de guerra, chegando à beira da loucura.

Essa loucura levou muitos jovens americanos à morte, pois achando que eram verdadeiros “deuses da guerra” os recrutas enfrentavam situações para as quais não estavam psicologicamente preparados, o que causou um número cada vez maior de baixas. Os que ficavam se dividiam em dois grupos distintos: os que encaravam a guerra como um “parque de diversões” e os que encaravam as batalhas com uma pergunta sem resposta: “por que estamos fazendo isso?” — novamente essa questão é bem explorada no filme. De baixa em baixa, começaram dentro dos Estados Unidos manifestações contra a guerra, o que levou a mudanças drásticas na forma de encarar a sua participação no conflito.

Sem dúvida alguma, o filme Nascido Para Matar é uma obra prima da filmografia sobre a história da Guerra do Vietnã, sua crítica sobre os fatos que vão da preparação até a atuação dos soldados nas batalhas são um “prato cheio” para se fazer uma análise do que é ir para a guerra.

Adriano Almeida

4 de mai de 2009

Guerra do Vietnã

Após o mês de abril sem atividades, retornamos com o novo e polêmico bloco temático: a Guerra do Vietnã.

Dessa vez, não escolhemos os filmes. Através de uma enquete, nossos leitores votaram nos três filmes mais importantes sobre essa guerra na opinião deles.

Assim, atendendo a pedidos: clássicos da Guerra do Vietnã.

Boa leitura!

31 de mar de 2009

O Resgate de Harrison

Título original: Harrison's Flowers
Direção: Elie Chouraqui
Elenco: Andie MacDowell, Adrien Brody, David Strathairn, Elias Koteas
País: França
Ano: 2000
Duração: 131 minutos
Língua: Inglês, servo-croata e francês
Nota IMDb: 7,2
Cores: Colorido







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O Amor contra a Guerra

O Resgate de Harrison foca em fotojornalistas cobrindo o conflito da Iugoslávia, mais especificamente a Guerra de Independência da Croácia (1991–1995). Essa premissa simples, no entanto, é transformada num filme com muitos recursos visuais, um bom elenco e efeitos especiais precisos.

Embora seja narrado sob várias perspectivas, a fita conta a história da família Lloyd, cujo pai, Harrison (David Strathairn), é fotógrafo. Após ser premiado com o Pullitzer, Harrison é mandado pela Newsweek para cobrir o conflito servo-croata, que a princípio pareciam ser “apenas escaramuças étnicas”, mas rapidamente se tornaram um extermínio de civis, inclusive inúmeros jornalistas. Acontece que Harrison é dado como morto, mas sua esposa, Sarah (Andie MacDowell), se recusa a acreditar e vai atrás dele.

Usando recursos de pseudo-entrevistas no estilo documentário, o perfil do casal Sarah e Harrison vai sendo construído e a história ganha vida. Os vários fotógrafos que estão no país em guerra acabam se vendo obrigados a ajudá-la. Entre eles, estão Adrien Brody (O Pianista), Brendan Gleeson (Harry Potter) e Elias Koteas (Além da Linha Vermelha), que ajudam a agregar veracidade à história.

Visualmente, o filme usa alguns recursos interessantes, como um plano-seqüência da frente de ataque croata, uso de imagem congelada para representar as fotografias, etc. Também ganha muitos pontos por utilizar as línguas dos Bálcãs e não aliviar os massacres ocorridos ali, o que poderia acabar minimizado os efeitos da política de genocídio do governo iugoslavo, que resultava em estupros e execuções em massa.

A parte “pirotécnica” é muito bem produzida, com explosões e balas traçantes próximas da câmera e muita destruição. Apesar disso, a produção comete erros primários de continuidade, como na maquiagem e troca de veículos (vale a pena observar o “TV” escrito no pára-brisa do carro: ele muda a cada tomada).

No geral, o resultado é bom. Além de ser bem-feito, o filme consegue reunir uma história de amor não totalmente inverossímil com a face mais grotesca da guerra. O diretor claramente se esforça para mostrar a Guerra da Iugoslávia com uma das mais caóticas e sangrentas da história, em que até os jornalistas pagaram com a vida.

Heber Costa


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Fragmentando uma nação

A dualidade e as disputas entre os países socialistas e capitalistas na Europa chegaram ao fim no início dos anos 1990, levando a um confronto ideológico entre as diversas etnias que compunham as nações adeptas do comunismo. Essa querela levou muitos países do Leste Europeu a se fragmentar, e esse processo acabou por gerar várias guerras civis. Sem dúvida alguma, a guerra entre croatas e sérvios foi a mais sangrenta de todas, com conflitos quase que constantes e muitas vezes sem fazer escolhas entre as vitimas — o filme O Resgate de Harrison nos dá uma boa dimensão dos combates em áreas civis e das baixas de não-militares ocorridas no transcorrer das batalhas.

Uma região cujo modelo de nação era basicamente submetido ao comunismo da União Soviética e da Alemanha Oriental e que recebia um grande apoio econômico se viu de uma hora para outra sem essa ajuda. Com o fim da “cortina de ferro”, as influências do mundo capitalista entraram de forma arrasadora no seio das classes dominantes e foram mais um atrativo para uma cisão da Iugoslávia em vários outros países como a Croácia, Bósnia, Sérvia e Montenegro.

Quando se pensava que as velhas rivalidades e antigos ódios estivessem sepultados por mais de quarenta anos de convívio de paz sob um regime comum, eis que se dá o conflito étnico-militar pela supremacia desse território. Com essa disputa, a Sérvia tinha a intenção de promover uma limpeza étnica e criar um Estado com uma esmagadora maioria de etnia sérvia. Uma guerra que durou dez anos e levou miséria a uma região onde ocorreram os principais acontecimentos da história antiga e da nossa contemporaneidade — vale lembrar que foi nessa região que aconteceu o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, o que levou ao início a Primeira Guerra Mundial.

O filme O Resgate de Harrison nos leva a ver a situação do território onde se deram as batalhas, mostra de uma forma bem clara a atuação dos repórteres mostrando ao mundo, quase que ao vivo, as atrocidades que uma guerra pode causar em uma população e as baixas não só dos envolvidos diretamente nas disputas, mas também daqueles foram lá para relatar os acontecimentos.

Adriano Almeida

25 de mar de 2009

Salvador

Título original: Salvador
Direção: Oliver Stone
Elenco: James Woods, Jim Belushi, Michael Murphy, John Savage
País: Estados Unidos
Ano: 1986
Duração: 123 minutos
Língua: Inglês e espanhol
Nota IMDb: 7,5
Cores: Colorido







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Morte e Medo sob o Coturno da Repressão

Após a segunda metade do século XX, os EUA passaram a interferir mais diretamente na política interna dos países da América Latina. É nesse contexto que se passa o enredo de Salvador, dirigido por Oliver Stone, que saiu junto com o clássico Platoon e por isso acabou ofuscado.

O filme segue Richard Boyle, um fotojornalista porra-louca que precisava dar uma guinada na sua vida e na sua carreira, durante o tempo que ele passou em El Salvador no fim da década de 1970, início de 1980, quando o presidente Carlos H. Romero foi derrubado e começou uma verdadeira guerra civil entre as guerrilhas que já lutavam desde o início dos anos 1970 e a junta militar que subiu ao poder. No começo cauterizado por outras guerras, Boyle vai se sensibilizando com a situação do país, especialmente depois de se envolver amorosamente com uma salvadorenha e depois que a verdade sobre os massacres vai ficando cada vez mais escancarada. A situação chega a um ponto insustentável com o estupro e a execução de freiras americanas que prestavam ajuda humanitária na região.

Embora não seja nenhuma obra prima, muitas vezes sendo mais um retrato da viagem psicodélica de Boyle, Salvador tem o mérito de mostrar com crueza contundente o que ocorreu naquele pequeno país, denunciando também a relação dos americanos com os militares salvadorenhos. Embora tenha sido feito com um orçamento irrisório para padrões hollywoodianos (em torno de 2 milhões de dólares), as cenas de ação são bem feitas e a produção em geral é boa. O elenco, que contava com atores como James Woods, Jim Belushi e John Savage, consegue um bom desempenho, principalmente Woods, que foi responsável por uma das duas indicações ao Oscar que o filme recebeu (a outra foi Melhor Roteiro Adaptado).

No making-of, o embaixador americano em El Salvador à época, Robert White, interpretado (sob o nome fictício de Thomas Kelly) por Michael Murphy, embora negue que tenha tomado certas medidas mostradas em Salvador, comentou que o filme atinge o propósito de mostrar as estranhas relações entre militares salvadorenhos e americanos e questionar o financiamento de tais operações. Ele foi uma das testemunhas da acusação contra os assassinos das freiras. Mas esse foi apenas um dos inúmeros crimes humanitários cometidos em El Salvador.

Heber Costa

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Para que intervir?

Durante muito tempo os países da América Latina viveram sob influência dos blocos político-econômicos das décadas de 1980 e 1990 — capitalismo e socialismo. Essa dualidade gerou vários conflitos civis, em que frentes populares de esquerda duelavam com governos apoiados por países capitalistas. Em algumas nações a “ajuda” se dava por meio de investimentos financeiros e militares; em outros, a intervenção acontecia de forma mais direta; em certos casos, as duas coisas.

Intervenções eram comuns na América Latina durante as décadas de 60, 70 e 80, quando as ditaduras eram financiadas pelo capital e a logística de países do primeiro mundo, como os Estados Unidos. Isso acabava gerando guerras civis levando os países a uma verdadeira dependência econômica após o final dos conflitos.

Em El Salvador, aconteceu uma intervenção militar dos Estados Unidos durante a guerra civil que durou 12 anos, custando a vida de cerca de 75.000 pessoas — isso é bem mostrado no filme Salvador, que apesar de tratar de um caso particular explora muito bem o cotidiano da população salvadorenha no conflito armado entre o governo e a guerrilha de esquerda, organizada em torno da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN). Durante o tempo do conflito, as disputas entre os blocos socialistas e comunistas se mostraram bastante disformes, pois o governo de direita recebia um total apoio político e militar enquanto as guerrilhas de esquerda lutavam com armas ultrapassadas e precárias e praticamente não recebiam apoio militar dos comunistas dos países do primeiro mundo — União Soviética, por exemplo.

Essas situações foram muito bem exploradas por Oliver Stone em Salvador, um filme bem interessante do ponto de vista histórico, que mostra a disparidade entre as duas forças que duelavam — enquanto o governo atacava com tanques e aviões americanos os guerrilheiros investiam com cavalos. A guerra chegou ao fim em 1992, quando o governo e a guerrilha assinaram um tratado que levou a reformas militares e políticas.

Adriano Almeida

15 de mar de 2009

Terra e Liberdade

Título original: Land and Freedom
Direção: Ken Loach
Elenco: Ian Hart, Rosana Pastor, Icíar Bollaín, Marc Martinez
País: Grã Bretanha, Espanha, Alemanha e Itália
Ano: 1995
Duração: 109 minutos
Língua: Inglês, espanhol e catalão
Nota IMDb: 7,5
Cores: Colorido





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Ideologia x Realidade

A Guerra Civil Espanhola (1936–1939) talvez só perca em obscuridade para a Guerra da Coréia. Mas esse conflito foi um prelúdio da formação do mundo que iria surgir após a Segunda Guerra, um mundo dividido entre países socialistas e capitalistas (resumindo de forma simplória). Ela também representou um grande avanço no fotojornalismo, o que possibilitou que a guerra mundial tivesse ampla cobertura e inúmeros registros visuais. Esse é o plano de fundo para os conflitos ideológicos trazidos à tona por Ken Loach neste ótimo Terra e Liberdade.

O filme conta a história de David, um membro do partido comunista na Irlanda que se vê desempregado e decide ir lutar ao lado dos republicanos, que recebiam voluntários e armas da União Soviética, do México e de movimentos comunistas internacionais, contra os franquistas, apoiados pela Alemanha nazista, a Itália fascista e o regime de Salazar, em Portugal. As condições de luta eram precárias e o treinamento era básico. No decorrer da trama, ele se apaixona por uma companheira de combate, mas suas visões a respeito dos rumos do conflito e das ações da liderança divergem, o que acabará acontecendo entre os próprios milicianos mais adiante. A cada aldeia libertada, surgem novos questionamentos sobre o lado prático da revolução, isto é, as questões agrárias e de propriedade, e isso acaba dividindo o movimento comunista. Na prática, parecia que a ideologia era outra. Era o choque da realidade com o idealismo.

O longa é uma ótima oportunidade de ver como se formaram as brigadas internacionais, que contaram com nomes ilustres em suas fileiras, como Ernest Hemingway, George Orwell e Antoine de Saint-Exupéry. No filme, as cenas de combate são esparsas, mas pode-se ver uma encarniçada guerra de trincheiras e alguns momentos de guerrilha urbana.

Enfim, além de um recorte da guerra e da vida de um combatente, Terra e Liberdade é também uma crônica que, sem apontar culpados nem criar teorias conspiratórias, mostra como o movimento republicano pode ter se esfacelado por dentro antes mesmo de sofrer a derrocada final pelas mãos dos partidários de Franco. O que não é nenhum absurdo considerando os conflitos de interesse que surgem dentro de qualquer grupo humano, ainda mais naqueles com motivação política. Vale a pena.

Heber Costa

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Uma guerra civil… mas com ideologia

Historicamente, a Espanha foi o último país da Europa a entrar na era moderna, isso fez com que o processo de transição da monarquia para a república se transformasse numa verdadeira disputa entre as ideologias de direita e esquerda que se proliferavam no velho continente antes da Segunda Guerra Mundial — nazismo na Alemanha, fascismo na Itália e o comunismo na União Soviética. Não seria nenhuma novidade que o choque entre essas idéias levaria a Espanha a uma guerra civil de propulsões continentais, visto que participaram das batalhas combatentes de várias outras nacionalidades: eles lutavam por seus ideais e não pela nação espanhola — o filme Terra e Liberdade conota esse fato de forma bastante consciente. Vale lembrar que, dos acontecimentos do entreguerras, o mais importante foi a Guerra Civil Espanhola.

O ambiente da Espanha antes do ano de 1936 era de instabilidade, pois a monarquia espanhola vivia da nostalgia de um passado imperial grandioso com as suas conquistas no novo continente e mantendo um contingente elevado de oficiais no exército. A igreja era herdeira do obscurantismo e intolerância do medievo e via a sua participação no governo cada vez mais diminuir. A economia foi o ponto principal para levar ao fim o antigo regime absolutista. Com a crise mundial de 1929, foi necessário encaminhar o país a um novo patamar, levá-lo a uma modernização que só seria possível com a instalação da república — é bem verdade que essa crise pouco atingiu país, mas ela foi de extrema importância, pois desencadeou uma crise entre as classes sociais espanholas.

Após a instalação da república houve um momento de profunda instabilidade, com vários assassinatos entre as lideranças políticas, o que levou, no dia 18 de julho de 1936, o General Francisco Franco a insurgir o Exército contra o governo republicano. Contudo, o golpe não foi bem-sucedido, pois nas principais cidades, como a capital Madri e Barcelona, o povo saiu às ruas e impediu a consolidação total do golpe. O país em pouco tempo ficou dividido em duas áreas distintas: uma nacionalista, dominada pelas forças de Franco, e outra republicana, controlada pelos esquerdistas (anarquistas e comunistas).

Nesse período, a Espanha se viu em meio a confrontos ideológicos não só de ordem inversa, mas também entre as ideologias que nasceram de uma mesma “mãe” e trilharam caminhos diferentes, como as vertentes stalinista, anarquista ou trotsquista — novamente isso é bem explorado em Terra e Liberdade, que basicamente traz como ponto-chave a disputa de legitimação entre os pró-revolução e os pró-república. Isso gerou uma crise entre os esquerdistas, o que acabou enfraquecendo a sua organização. Após essa situação, o desfecho da guerra era o que os nacionalistas esperavam, melhor equipados e com o apoio bélico da Alemanha e da Itália, o exército nacionalista avançou sobre os republicanos e, no dia 28 de março de 1939, puseram um ponto final na Guerra Civil Espanhola.

Adriano Almeida

12 de mar de 2009

Guerra Civil

Cenas da Guerra retorna com um novo bloco temático: desta vez o foco é a guerra civil. Para os não familiarizados com o termo, a chamada guerra civil pode não ter absolutamente nada de civil: é simplesmente um termo cunhado para designar conflitos entre cidadãos de um mesmo país dentro das suas próprias fronteiras, incluindo militares.

Escolhemos três filmes, cada um sobre uma importante guerra civil da história. Esperamos que vocês apreciem nossas escolhas e que isso ajude alguém a se interessar sobre o tema e refletir sobre as conseqüencias desse que, como as brigas de irmãos (só que em proporções maiores), é um dos tipos de guerra mais encarniçados e sangrentos.
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28 de fev de 2009

Patton – Rebelde ou Herói?


Título original: Patton
Direção: Franklin J. Schaffner
Elenco: George C. Scott, Karl Maden
País: Estados Unidos
Ano: 1970
Duração: 170 minutos
Língua: Inglês, francês, alemão, russo e árabe
Nota IMDb: 8,1
Cores: Colorido





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O General Controvérsia

Embora não tenha tido tanto destaque quanto Eisenhower, Montgomery e Rommel, o general George S. Patton foi realmente uma das figuras mais interessantes da Segunda Guerra Mundial. Carismático, ambicioso e brilhante estrategista, Patton teve atuações importantes para o resultado positivo dos aliados.

Patton – Rebelde ou Herói? (esqueça o subtítulo) conta a trajetória desse personagem justamente durante o conflito mundial, mais especificamente entre a entrada dos americanos na campanha do norte da África e o fim da guerra. O início mostra um Patton dizendo a que veio, numa das cenas mais marcantes do cinema. Trata-se de um discurso proferido pelo ótimo George C. Scott no papel do general que é um apanhado de vários discursos reais. Esse começo, aliás, foi uma ousadia do jovem
Francis Ford Coppola, que assinou o roteiro e curiosamente acabou despedido antes do fim das filmagens, mas o filme acabou ganhando o Oscar de melhor roteiro original (e mais 7 Oscars), o que lhe possibilitou concluir a obra prima O Poderoso Chefão.

Embora longo, o filme prende a atenção por alternar muito bem cenas de ação com dramáticas. Além disso, é possível estabelecer ligações históricas com outros filmes. As aparições de Rommel remetem a
Raposa do Deserto, a passagem por Malmedy relembra Santos ou Soldados e o polêmico resgate da 101st Airborne em Bastogne faz lembrar um dos últimos capítulos da extraordinária série Band of Brothers.

Como pontos negativos, pode-se dizer que o filme às vezes dá a entender que Patton teve uma influência muito maior no curso da guerra do que realmente teve. O tom às vezes fica elogioso demais, especialmente quando vindo de personagens alemães. Mas a parte negativa acaba por aí. Não é só uma boa cinebiografia: é um excelente filme de guerra.

A produção é fantástica: são inúmeros tanques, aviões e soldados. Há um cuidado com a precisão histórica de uniformes, armas e cenários. Um ponto sempre positivo é cada personagem falar realmente a sua língua, como é o caso aqui. A perspectiva narrativa é a de um general, ou seja, privilegia a visão panorâmica, em vez da câmera individual, que simula a visão do soldado.

É possível enxergar o lado ruim e bom de Patton, um sujeito desbocado, religioso, rude, delicado, competitivo, poético e… isso mesmo: controverso.

Heber Costa



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Toda glória é efêmera

Dentre os grandes generais da Segunda Guerra, alguns se destacaram de forma peculiar. Um deles foi o general do 3º Exército dos Estados Unidos, George Smith Patton Jr. Se a Alemanha tinha toda a perspicácia e intuição de Rommel, os aliados tinham a rebeldia e audácia de Patton, um oficial com extraordinária competência, um imenso senso de liderança e um temperamento incrivelmente rebelde. Dono de um linguajar único e atitudes muitas vezes revoltantes, Patton se considerava um verdadeiro guerreiro — no melhor estilo clássico da Idade Antiga.

O “Old Blood and Guts”, como era conhecido, esteve presentes nos momentos mais importantes da Segunda Guerra: na África, combatendo os Afrika Korps de Rommel — havia uma admiração mútua entre esses dois generais; nas movimentações da invasão da Normandia, no Dia D, sem falar que foi sua a investida mais bem-sucedida da marcha a Berlim — em pouco tempo, ele avançou cerca de 2.000 km, retirando de combate 1,8 milhão de soldados alemães e libertando mais de 12 mil cidades e povoados da Europa. Ao mesmo tempo que era brilhante no front, ele cometia verdadeiras mancadas nos bastidores: desobedeceu ordens dos superiores e xingou de covarde os soldados com fadiga de batalha.

Um dos momentos mais importantes da sua campanha européia foi o apoio à 101ª divisão Airborne da floresta de Ardenas, em que seus comandados percorreram 150 km de distância sem descanso e ainda batalharam contra o exército alemão. Inúmeros foram os seus feitos: a conquista de Palermo na Sicília, no norte da África, na França, entre outros. Fez vários amigos e inimigos dentro e fora do exército aliado — o principal desafeto foi o marechal inglês Bernard Law Montgomery, mais conhecido como “Monty”.

Um dos melhores relatos sobre sua vida militar é o filme Patton – Rebelde ou Herói?, que mostra a trajetória do general desde as campanhas na África até a sua deposição do 3º Exército após a tomada de Berlim. Sem dúvida alguma, uma das melhores cinebiografias dos grandes personagens da Segunda Guerra Mundial. Para aqueles que quiserem saber mais sobre a vida de Patton, existe um livro autobiográfico intitulado A Guerra que Eu Vi (1974). E, para finalizar, uma frase dita a ele: “Toda glória é efêmera…”.

Adriano Almeida

22 de fev de 2009

Raposa do Deserto


Título original: The Desert Fox: The Story of Rommel
Direção: Henry Hathaway
Elenco: James Mason, Desmond Young, Leo G. Carroll, Jessica Tandy
País: Estados Unidos
Ano: 1951
Duração: 88 minutos
Língua: Inglês
Nota IMDb: 7,1
Cores: Preto e branco


Trailer




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A História de Erwin Rommel

Considerado um dos mais brilhantes estrategistas da história militar da Alemanha (talvez do mundo),
Erwin Rommel era também um homem de bom senso, um patriota e um cavalheiro. Pelo menos é isso que mostra o filme Raposa do Deserto, que narra um trecho da vida dessa ilustre figura da história mundial.

O filme começa com uma apresentação do personagem que será o narrador: o Tenente Coronel Desmond Young, que na vida real foi o autor da biografia de Rommel, que foi adaptada como roteiro por Nunnaly Johnson. Logo de início, há uma surpresa desagradável para os desavisados: o filme é em inglês. Isso é um fator que soma pontos negativos, pois sempre surgem aquelas cenas em que alemães e britânicos se encontram e trocam palavras como se não houvesse uma língua e uma cultura entre eles.

Afora esse detalhe, no todo o filme é muito bom. Além de retratar a postura nobre e a capacidade estratégica da “Raposa do Deserto”, concentra-se naquela que talvez tenha sido a mais decisiva campanha de sua vida: o plano para matar Hitler. A história desse plano e suas conseqüências já foram contadas em vários filmes, entre eles um batizado em português de Operação Valquíria, longa alemão (muito bem) produzido para a TV em 2004, cujo nome original é Stauffenberg, numa alusão ao nome do oficial que plantou a bomba na casamata de Hitler. Essa fita com certeza é a base do novo Operação Valquíria, com Tom Cruise.

Mas, voltando para Raposa do Deserto, ele explora o conflito ideológico enfrentado pelo marechal-de-campo alemão: cumprir seu dever de soldado e enfrentar a destruição ou pensar no bem da Alemanha como um todo e envolver-se numa traição. A história é muito bem contada ao estilo dos anos 1950, costurando imagens novas e registros reais da guerra no deserto norte-africano. Como na maioria dos filmes antigos, algumas montagens são constrangedoras e algumas atuações também (veja-se o Hitler). No elenco, há atores do nível de Jessica Tandy (Tomates Verdes Fritos, Cocoon e Conduzindo Miss Daisy) e vale também notar a presença do biógrafo Desmond Young como ele mesmo.

Mas James Mason (1909–1984) rouba a cena e empresta ao papel principal uma dignidade impressionante, fazendo o público praticamente esquecer que está vendo um ator britânico, e não alemão, na tela. Mason, aliás, estrelou clássicos como Lolita, Cyrano de Begerac e Madame Bovary. Em 1953, aceitou repetir o papel de Rommel no ótimo Ratos do Deserto, que conta a história das tropas australianas que demonstraram grande bravura contra os alemães no
Cerco de Tobruk, na Líbia, em 1941. Mas essa já é outra história do marechal-de-campo Erwin Johannes Eugen Rommel.

Heber Costa


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Bravo e destemido

No jogo de xadrez das campanhas de guerra, sempre os melhores homens conseguem sobressair: alguns pela sua perspicácia, outros pela sua coragem, muitos pela lealdade e companheirismo, porém poucos conseguem reunir todos esses pré-requisitos e, quando conseguem, marcam o sue nome na história das grandes batalhas. Um deles sem dúvida é Erwin Johannes Eugen Rommel.

Temido pelos seus adversários e venerado pelos seus comandados Rommel tornou a campanha no norte da África — durante a Segunda Guerra Mundial — em um campo de extrema estratégia e de uma disputa até hoje jamais vista. Armado com uma astúcia invejável e um senso de ataque que causava invídia, o marechal-de-campo levou o Afrika Korps a ser conhecido mundialmente. Apesar de toda a sua competência, a campanha no norte da África acabou não sendo vitoriosa. Inúmeros foram os motivos que levaram a tal fato — desde a falta de apoio logístico até a escassez de combatentes —, e isso fez com que Rommel voltasse para a Europa a pedido de Hitler para coordenar as defesas na França, Holanda, Bélgica e Dinamarca contra uma possível invasão aliada.

Um dos melhores relatos sobre a trajetória de Rommel é o filme Raposa do Deserto, titulo que faz alusão ao apelido que o major recebeu durante a campanha da África. O filme traz um relato marcante sobra a sua vida militar, abordando os problemas durante a campanha do Afrika Korps, passando pela conspiração contra o Führer, e chegando à sua morte — vale lembrar que após ser ferido na invasão da Normandia, Rommel foi hospitalizado e ali mesmo recebeu a noticia de que deveria decidir se iria ser julgado e provavelmente condenado junto com seus familiares ou optaria por ingerir veneno para suicidar-se, a opção escolhida foi a segunda.

Sem dúvida alguma naquele momento o mundo perderia uma das mais celebres mentes da guerra moderna, uma pessoa que independentemente do lado que estivesse seria um grande personagem na história da maior das guerras.

Adriano Almeida