15 de dez de 2008

Os Gritos do Silêncio


Título original: The Killing Fields
Direção: Roland Joffé
Elenco: Sam Waterson, Haing S. Ngor, John Malkovitch
País: Grã Bretanha
Ano: 1984
Duração: 141 minutos
Língua: Inglês, francês e khmer
Nota IMDb: 8,0
Cores: Colorido
Trailer













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Os Campos da Morte

Grande sucesso nos anos oitenta — tanto por conta dos horrores mostrados como por ter a famosíssima Imagine, de John Lennon (morto em 1980), na sua trilha —, Os Gritos do Silêncio foi mais um da frutífera safra (iniciada com O Franco-atirador, em 1978, e terminada com Pecados de Guerra, em 1989) que aborda a atuação controversa dos EUA no Sudeste Asiático.

É o auge da Guerra Fria e o fim da Guerra do Vietnã, já na Era Nixon (que, a essa altura, estava atolado até o pescoço no Watergate). O repórter cambojano Dith Pran trabalha como intérprete para Sydney Schanberg, do New York Times, que tinha a missão de investigar as incursões americanas no Camboja. Paralelamente, esse país asiático vivia uma guerra pelo poder entre os governantes e o Khmer Vermelho, que vence a luta, já nos idos de 1975, e estabelece campos de reeducação — verdadeiros “campos da morte”, fato que inspirou o título original. É nesse contexto (entre três conflitos: o do Vietnã, a guerra civil no Camboja e um conflito entre os dois) que se passa a odisséia real de Schanberg (Sam Waterson) pela verdade e de Pran (Haing S. Ngor) pela sua própria vida.

Aqui, o cunho político é tão forte quanto o biográfico. Não são poucas as referências ao fornecimento de armas por parte dos EUA e da URSS, inclusive com cenas irônicas como a das tropas do governo, equipadas pelos americanos, festejando a entrada de soldados do Khmer em cima de
APCs na capital, Phnom Penh. É curioso também observar Schanberg, um típico americano, educado nos valores da liberdade, deparando-se com a censura e a repressão sem limites dos rebeldes, sem falar no alistamento de crianças e nas táticas terroristas de guerrilha, consideradas uma violação dos códigos de guerra do ponto de vista da cultura ocidental.

A despeito do sucesso, há uma crítica: o filme é um tanto confuso quando se trata do conflito como um todo. Algumas transmissões de rádio perdidas iluminam um pouco o caminho do espectador, mas no geral, é difícil entender o contexto político. Não há grandes destaques na parte técnica, mas destacam-se a trilha sonora (ainda que experimental demais às vezes) e os efeitos nas cenas de combate, ferimentos e destruição. A atuação de
Haing S. Ngor lhe rendeu um Oscar, o segundo para um ator não-profissional, algo que não acontecia desde 1946.

A vida de Ngor, aliás, é um caso à parte. Ele era um obstetra e oficial médico do exército cambojano que acabou
prisioneiro do Khmer Vermelho, foi torturado e perdeu a esposa grávida naqueles campos. Refugiou-se nos EUA e, em 1984, atuou em Os Gritos do Silêncio. Seu fim foi trágico: em 1996, foi assassinado na porta de sua garagem. A princípio, suspeitou-se do Khmer; depois, as investigações mostraram que foi um mero latrocínio.

O filme é quase unanimidade. Definitivamente, um ótimo retrato de um conflito que ainda tem muito a oferecer para aqueles que querem compreender a alma humana.





Heber Costa

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Influências Silenciosas

O Camboja foi por muito tempo colônia francesa. Isso influenciou o sistema de governo do país que levaria a uma guerra civil sem precedentes na história dessa nação. Essa guerra é bem retratada no filme Os Gritos do Silêncio, que apesar de tratar um caso particular de luta pela sobrevivência — a do jornalista cambojano Dith Pran ­— tem como pano de fundo os diversos acontecimentos que marcaram a vida da população cambojana.

A região da Indochina após a Segunda Guerra Mundial virou um lugar de instabilidade constante. Por estar muito próxima a países socialistas e por ter sido protetorado francês, a Indochina acabou ganhando uma extrema importância no campo da disputa política durante os anos da Guerra Fria. A esfera de influência dos países capitalistas e socialistas se expandia de forma rápida na Ásia Insular com a ascensão e desenvolvimento acelerado do Japão e a Revolução Cultural na China, fazendo com que os países próximos a eles entrassem — mesmo que sem querer — no meio de uma guerra trágica, cruel e “silenciosa”. Exemplos não faltam, porém os melhores são sem dúvida alguma o Vietnã e o Camboja. Com relação ao primeiro não há o que a acrescentar aqui, as imagens e relatos da guerra falam por si sós; contudo, o segundo mostra que a influência dos países capitalistas e socialistas foi mais nos “bastidores” do que no próprio “palco de guerra”.

Governantes severos e repressores mergulharam o Camboja em uma situação de instabilidade política depois da independência do país, que se aproximaria do mundo capitalista. Porém, sua proximidade a países socialistas — China e Rússia — e a fracassada investida norte-americana no Vietnã levaram os opositores do governo a organizarem uma resistência — Khmer vermelho. Inicialmente, o KV teria o apoio da população, porém com a sua chegada ao poder e a política de educação — por sinal bem retratada no filme — adotada levaram a população a um estado de miséria profunda, e o país quase acabou todas as suas indústrias, lembrando muito a época feudal daquela região. Seguidos golpes e alternância no governo só fizeram agravar a crise no país até os anos 1990, quando, com o enfraquecimento do bloco socialista e a assinatura de um acordo, se conseguiu certa estabilidade política — agora sem a interferência silenciosa da Guerra Fria, que levou à reorganização do país que foi massacrado por uma guerra de interesses que não eram dele.

Um dos pontos altos do filme Os Gritos do Silêncio é retratar o tratamento diferenciado dado pelo Khmer Vermelho aos estrangeiros — principalmente os franceses — durante a guerra civil, totalmente diferente do que era dado à população cambojana.
Adriano Almeida
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