Mostrando postagens com marcador Treinamento militar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Treinamento militar. Mostrar todas as postagens

5 de mai. de 2009

Nascido Para Matar

Título original: Full Metal Jacket
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Matthew Modine, Adam Baldwin, Vincent D'Onofrio
País: Grã Bretanha e EUA
Ano: 1987
Duração: 116 minutos
Língua: Inglês e vietnamita
Nota IMDb: 8,3
Cores: Colorido







**************

A Guerra Que Não Acabou

Os fuzileiros navais (USMC) são conhecidos como uma das mais agressivas forças americanas. Seu treinamento extremamente rígido e seu condicionamento ideológico tornou-se alvo de polêmica. Essa elite terrestre das forças navais é a protagonista desse filme que é uma referência em termos de Guerra de Vietnã no cinema.

Baseado no livro de Gustav Hasford, Nascido para Matar é dividido em duas partes: o campo de treinamento e a guerra. A primeira parte retrata um treinamento brutal, que vem acompanhando de lavagem cerebral e humilhação. Até onde isso é verdade, ninguém sabe. Há argumentos que negam, outros que confirmam esse tipo de preparação para a guerra. Vê-se uma preocupação extrema em mostrar como se preparam os “assassinos” tanto filosófica quanto psicologicamente, mas desde o começo a ironia é um fator predominante: quando se trata de citar exemplos de bons fuzileiros, surge o nome de Charles Whitman (que matou 14 pessoas no Texas) e o de Lee Harvey Oswald. Um dos argumentos usados para provar que Oswald não poderia ter matado Kennedy (que ele atirou três vezes num carro em movimento em menos de 6 segundos) é justamente o que o sargento usa para provar o caráter super-humano dos marines. O comportamento do sargento-instrutor, aliás, é hilário de tão absurdo. Escatológico, ele mistura religiosidade e blasfêmia na tentativa de identificar quem são e o que fazem afinal os fuzileiros. Stanley Kubrick faz questão de debochar do sistema que engole tudo o que pode e vomita o que não absorve.

Há um corte abrupto entre as duas partes. A primeira termina com um choque, a segunda começa na placidez das ruas de Saigon. Há algumas pinceladas sobre as mentiras publicadas no Stars and Stripes (jornal das forças armadas) para levantar o moral das tropas. Aparece então a fantástica trilha sonora do filme, com clássicos dos anos 1960. Nessa segunda parte, é retratado um dos mais importantes acontecimentos históricos da guerra, que foi a
Ofensiva do Tet (30 de janeiro, ano-novo dos vietnamitas). Em 1968, os vietcongs armaram ataques coordenados em todo o país durante o Tet. Os alvos incluíram a embaixada americana em Saigon, a base dos fuzileiros em Khe Sahn e a cidade histórica de Hué. Embora não seja uma característica forte do filme, a ação começa na tentativa de repelir os ataques contra a base praieira de Da Nang (veja mapa) e depois segue a operação de retomada de Hué — esta última, uma das batalhas mais sangrentas da guerra. Usando na maior parte do tempo câmeras estáticas, Kubrick retrata ao seu modo a luta urbana nas ruas da cidade destroçada. Como alternativa à narração em off, ele usa um recurso de mise-en-abyme (um filme dentro do outro) para expor a opinião dos soldados, que àquela altura já tinham noção do rumo que a guerra tinha tomado.

No lado técnico, é impecável o uso do figurino, dos armamentos (note-se a evolução do M-14 nos treinos para o M-16 na guerra) e a reconstituição de operações e cenários. Já no conteúdo, ficam claras as críticas às políticas oficiais, à imprensa, aos aliados sul-vietnamitas e, claro, ao absurdo da guerra. Mesmo sendo uma superprodução, o filme não conta com nomes expressivos, exceto por Matthew Modine (onipresente nos anos 1980) e Adam Baldwin. Kubrick expressa em Nascido para Matar todo seu ressentimento para com uma guerra que para muitos nunca acabou.

Heber Costa

************************************


Matar ou Enlouquecer

Entre os anos de 1959 e 1975 aconteceu uma das guerras mais comentadas da nossa contemporaneidade: a Guerra do Vietnã. Apesar de o conflito armado ter ocorrido no Sudeste Asiático, ele envolveu de forma muito contundente um país que se encontrava do outro lado do mundo — os Estados Unidos.

Muitos encaram a participação dos yankees com uma das muitas investidas infelizes na história das guerras, contudo existiam interesses mais importantes por trás da daquela intervenção militar, que seriam a primazia política e a econômica do Vietnã e a influência que isso poderia causar na região. Os americanos, porém, não mediram as implicações que tal ato teria na sua própria sociedade.

Entre as várias conseqüências, vale destacar a opinião pública com relação aos ocorridos com os soldados antes e durante a guerra, desde o seu alistamento até a sua forma de pensar durantes os combates — o filme Nascido Para Matar explora de forma muito clara os efeitos do treinamento severo e desumano que os fuzileiros navais norte-americanos passavam fazendo com que muitas vezes eles virassem verdadeiras máquinas de guerra, chegando à beira da loucura.

Essa loucura levou muitos jovens americanos à morte, pois achando que eram verdadeiros “deuses da guerra” os recrutas enfrentavam situações para as quais não estavam psicologicamente preparados, o que causou um número cada vez maior de baixas. Os que ficavam se dividiam em dois grupos distintos: os que encaravam a guerra como um “parque de diversões” e os que encaravam as batalhas com uma pergunta sem resposta: “por que estamos fazendo isso?” — novamente essa questão é bem explorada no filme. De baixa em baixa, começaram dentro dos Estados Unidos manifestações contra a guerra, o que levou a mudanças drásticas na forma de encarar a sua participação no conflito.

Sem dúvida alguma, o filme Nascido Para Matar é uma obra prima da filmografia sobre a história da Guerra do Vietnã, sua crítica sobre os fatos que vão da preparação até a atuação dos soldados nas batalhas são um “prato cheio” para se fazer uma análise do que é ir para a guerra.

Adriano Almeida

15 de mar. de 2009

Terra e Liberdade

Título original: Land and Freedom
Direção: Ken Loach
Elenco: Ian Hart, Rosana Pastor, Icíar Bollaín, Marc Martinez
País: Grã Bretanha, Espanha, Alemanha e Itália
Ano: 1995
Duração: 109 minutos
Língua: Inglês, espanhol e catalão
Nota IMDb: 7,5
Cores: Colorido





*********************

Ideologia x Realidade

A Guerra Civil Espanhola (1936–1939) talvez só perca em obscuridade para a Guerra da Coréia. Mas esse conflito foi um prelúdio da formação do mundo que iria surgir após a Segunda Guerra, um mundo dividido entre países socialistas e capitalistas (resumindo de forma simplória). Ela também representou um grande avanço no fotojornalismo, o que possibilitou que a guerra mundial tivesse ampla cobertura e inúmeros registros visuais. Esse é o plano de fundo para os conflitos ideológicos trazidos à tona por Ken Loach neste ótimo Terra e Liberdade.

O filme conta a história de David, um membro do partido comunista na Irlanda que se vê desempregado e decide ir lutar ao lado dos republicanos, que recebiam voluntários e armas da União Soviética, do México e de movimentos comunistas internacionais, contra os franquistas, apoiados pela Alemanha nazista, a Itália fascista e o regime de Salazar, em Portugal. As condições de luta eram precárias e o treinamento era básico. No decorrer da trama, ele se apaixona por uma companheira de combate, mas suas visões a respeito dos rumos do conflito e das ações da liderança divergem, o que acabará acontecendo entre os próprios milicianos mais adiante. A cada aldeia libertada, surgem novos questionamentos sobre o lado prático da revolução, isto é, as questões agrárias e de propriedade, e isso acaba dividindo o movimento comunista. Na prática, parecia que a ideologia era outra. Era o choque da realidade com o idealismo.

O longa é uma ótima oportunidade de ver como se formaram as brigadas internacionais, que contaram com nomes ilustres em suas fileiras, como Ernest Hemingway, George Orwell e Antoine de Saint-Exupéry. No filme, as cenas de combate são esparsas, mas pode-se ver uma encarniçada guerra de trincheiras e alguns momentos de guerrilha urbana.

Enfim, além de um recorte da guerra e da vida de um combatente, Terra e Liberdade é também uma crônica que, sem apontar culpados nem criar teorias conspiratórias, mostra como o movimento republicano pode ter se esfacelado por dentro antes mesmo de sofrer a derrocada final pelas mãos dos partidários de Franco. O que não é nenhum absurdo considerando os conflitos de interesse que surgem dentro de qualquer grupo humano, ainda mais naqueles com motivação política. Vale a pena.

Heber Costa

****************

Uma guerra civil… mas com ideologia

Historicamente, a Espanha foi o último país da Europa a entrar na era moderna, isso fez com que o processo de transição da monarquia para a república se transformasse numa verdadeira disputa entre as ideologias de direita e esquerda que se proliferavam no velho continente antes da Segunda Guerra Mundial — nazismo na Alemanha, fascismo na Itália e o comunismo na União Soviética. Não seria nenhuma novidade que o choque entre essas idéias levaria a Espanha a uma guerra civil de propulsões continentais, visto que participaram das batalhas combatentes de várias outras nacionalidades: eles lutavam por seus ideais e não pela nação espanhola — o filme Terra e Liberdade conota esse fato de forma bastante consciente. Vale lembrar que, dos acontecimentos do entreguerras, o mais importante foi a Guerra Civil Espanhola.

O ambiente da Espanha antes do ano de 1936 era de instabilidade, pois a monarquia espanhola vivia da nostalgia de um passado imperial grandioso com as suas conquistas no novo continente e mantendo um contingente elevado de oficiais no exército. A igreja era herdeira do obscurantismo e intolerância do medievo e via a sua participação no governo cada vez mais diminuir. A economia foi o ponto principal para levar ao fim o antigo regime absolutista. Com a crise mundial de 1929, foi necessário encaminhar o país a um novo patamar, levá-lo a uma modernização que só seria possível com a instalação da república — é bem verdade que essa crise pouco atingiu país, mas ela foi de extrema importância, pois desencadeou uma crise entre as classes sociais espanholas.

Após a instalação da república houve um momento de profunda instabilidade, com vários assassinatos entre as lideranças políticas, o que levou, no dia 18 de julho de 1936, o General Francisco Franco a insurgir o Exército contra o governo republicano. Contudo, o golpe não foi bem-sucedido, pois nas principais cidades, como a capital Madri e Barcelona, o povo saiu às ruas e impediu a consolidação total do golpe. O país em pouco tempo ficou dividido em duas áreas distintas: uma nacionalista, dominada pelas forças de Franco, e outra republicana, controlada pelos esquerdistas (anarquistas e comunistas).

Nesse período, a Espanha se viu em meio a confrontos ideológicos não só de ordem inversa, mas também entre as ideologias que nasceram de uma mesma “mãe” e trilharam caminhos diferentes, como as vertentes stalinista, anarquista ou trotsquista — novamente isso é bem explorado em Terra e Liberdade, que basicamente traz como ponto-chave a disputa de legitimação entre os pró-revolução e os pró-república. Isso gerou uma crise entre os esquerdistas, o que acabou enfraquecendo a sua organização. Após essa situação, o desfecho da guerra era o que os nacionalistas esperavam, melhor equipados e com o apoio bélico da Alemanha e da Itália, o exército nacionalista avançou sobre os republicanos e, no dia 28 de março de 1939, puseram um ponto final na Guerra Civil Espanhola.

Adriano Almeida

15 de nov. de 2008

Hamburger Hill


Título original: Hamburger Hill
Direção: John Irvin
Elenco: Dylan McDermott, Steven Weber, Courtney B. Vance, Don Cheadle
País: EUA
Ano: 1987
Duração: 110 minutos
Língua: Inglês e francês
Nota IMDb: 6,5
Cores: Colorido
Trailer









************************************************



Lama e Sangue na Colina 937

Na metade dos anos 1980, os EUA começavam a exorcizar o fantasma do Vietnã. É aí que surge Hamburger Hill, um filme bom que acabou ofuscado[1] por contemporâneos que se tornaram clássicos do gênero e referência sobre a época, como Platoon (1986), Nascido Para Matar (1987), Pecados de Guerra (1989) e Nascido em 4 de Julho (1989).

Filmado nas Filipinas, país de relevo e vegetação muito semelhantes ao Vietnã, o filme se passa em 1969, na campanha do Vale Ashau (a oeste de
Hué próximo à fronteira com o Laos), durante os onze dias da operação Apache Snow — o ataque à Colina 937, ou “Hamburger Hill” (no sentido de carne moída). Nixon acabara de assumir a presidência. A essa altura, mais de 30 mil americanos já haviam morrido, a guerra já parecia absurda e o movimento pela paz e a luta contra a discriminação racial se intensificavam.

Tais divergências de opinião estão presentes no esquadrão[2] do Sgt. Frantz (Dylan McDermott), cujo único propósito é preservar a vida de seus soldados e sobreviver. Aqui, elementos típicos do conflito são retomados: treinamento, dialeto dos GIs, músicas de época, antipatia para com novos recrutas. Também se pode ver muito da tática empregada na época: pelotões[2] (munidos de
M16s, M60s e M79s) avançam com apoio de bombardeios. Os combates retratados são ferozes, fazendo deste filme um dos mais violentos sobre o Vietnã.

Entre as investidas contra o morro, a espera. Aí surgem as questões raciais, a guerra psicológica (propaganda inimiga) e debates sobre o rumo e o sentido da guerra, assim como o problema da reintegração do soldado ao “mundo real”. No decorrer do filme, as diferenças ficam mais explícitas e, ao mesmo tempo, são minimizadas diante da isonomia com que a guerra atinge a todos os soldados — brancos, negros ou asiáticos[3]. Nesse ponto, Hamburger Hill fraqueja. Idéias interessantes se perdem em diálogos truncados e até desconexos, prejudicando o aprofundamento das discussões.

Ainda vale destacar o papel dos oficiais: aqui, não há comandantes turrões, que trovejam ordens a torto e a direito. Na figura do Ten. Eden, o oficial é retratado como alguém que tem conhecimento teórico e voz de comando, mas pouca experiência de combate. Não se percebe qualquer animosidade entre superior imediato e comandados.

Enfim, com boas cenas e combates — apesar de a fotografia oscilar entre a inovação e o convencional (às vezes, parece filme para TV) —, Hamburger Hill retrata com crueza o que foi aquela operação contra o Exército Norte-Vietnamita (ENV)[4]. E o mais importante: mostra quão suja, sangrenta e trágica foi a tomada do Monte 937.



Heber Costa



[1] Do elenco, ao menos um ator ganhou projeção: Don Cheadle (Hotel Ruanda, 2004), que entrou para a trupe de George Clooney em Onze Homens e um Segredo.
[2] Na infantaria (EUA), um esquadrão tem de sete a nove homens e é comandando por um sargento. Um pelotão tem trinta homens, sendo liderado por um tenente.
[3] O roteiro comete uma injustiça: ao lado dos americanos, combateu um batalhão de sul-vietnamitas da 1ª Divisão, que sequer foi mencionado no filme.
[4] Vale fazer uma distinção: nesse caso, era o exército regular (EVN), e não os vietcongs, braço guerrilheiro que atuava mais no sul, especialmente no delta do Mekong. Nesses onze dias, foram 544 mortos do EVN contra 50 americanos.



*****************************************************

Apenas Mais um “Monte”

As lembranças que ficam da guerra sempre são as das montanhas de mortos. Não há como se evitar as baixas e, por incrível que pareça — tratando-se em números percentuais —, as mais numerosas ocorrem nas operações de assalto: mesmo com toda a sua eficácia, tais situações levam a grandes contingentes mortes tanto de militares quanto de civis. Uma das guerras onde se pode verificar a grandeza desses números é a Guerra do Vietnã, na qual morreram cerca de 2 milhões de vietnamitas e 50 mil norte-americanos. Observa-se a disparidade entre esses números: as baixas vietnamitas foram enormes em relação às americanas. Um das batalhas que melhor exemplifica essa situação foi a tomada da Colina 937 — conhecido entre os soldados como Hamburger Hill — no Vale Ashau.

O Vale Ashau era utilizado como principal ponto de chegada de suprimentos no Vietnã, a tomada desse monte era vital para quebrar o abastecimento das tropas inimigas. A ofensiva durou 11 dias, e o mais impressionante dessa operação foi o número de cadáveres e a situação do terreno ao final do combate. Lutando de forma quase desigual, os nativos conseguiram igualar as coisas, pois estavam numa melhor posição e com bases fixas a espera do inimigo. Os americanos utilizaram a tática habitual em uma situação como essa no Vietnã — os constantes bombardeios da artilharia e os ataques aéreos com o napalm fazendo o monte "brilhar". Sem dúvida, foi uma das mais sangrentas batalhas do ano de 1969, e as suas conseqüências não ficaram apenas na dominação das rotas de abastecimento da região. Foram além dali, repercutiram de forma dura na imagem que a guerra tinha nos Estados Unidos — nesse período a opinião publica já vinha questionando a necessidade da participação na guerra. O número de mortos e feridos levou o governo norte-americano rever a sua política ao combate no Vietnã.

O filme Hamburger Hill, que relata a história sobre a tomada do Monte 937, não podemos identificar grandes momentos históricos, a conseqüência desse evento foi mais político, contudo ele serve com um bom entretenimento para os que gostam da primeira guerra perdida pelo Estados Unidos da América.




Adriano Almeida

_

25 de out. de 2008

Tigerland – A Caminho da Guerra

Título original: Tigerland
Direção: Joel Schumacher
Elenco: Colin Farrell, Matthew Davis, Clifton Collins Jr., Shea Whigham, Nick Searcy
País: EUA
Ano: 2000
Duração: 100 minutos
Língua: Inglês
Nota IMDb: 7,1
Cores: Colorido
Trailer









**************************************


Máquina de Fazer Soldados

Fort Polk, Louisiana, 1971. Os recrutas Roland Bozz (Colin Farrell) e Jim Paxton (Matthew Davis) vão para o treinamento nos últimos anos da Guerra do Vietnã (1959–1975), pelo menos para os EUA, que só participaram de 1965 a 1973. Os jovens* já estavam sendo treinados por veteranos** do Vietnã. A revolução sexual atingia seu ápice, e as drogas estavam em alta. A guerra não tinha mais apoio da opinião pública, especialmente por conta de fatos como o Massacre de My Lai***, mencionado por Paxton. Nesse contexto, o Exército era uma bolha de realidade diametralmente diferente do que ocorria ao seu redor. Bozz, que antes aparenta apenas não respeitar autoridades, mostra-se anti-Exército e tenta sabotar ideologicamente o sistema insubordinando-se a cada instante; enquanto Paxton é um voluntário que acredita no cumprimento do dever, embora concorde com o amigo quanto ao Exército não ser uma massa uniforme de homens e a guerra não ter sentido.

Tigerland tem intenções claras de expor falhas no discurso do Exército — como a idéia de que é “um só homem”, um corpo único e homogêneo — justamente mostrando os conflitos ideológicos que existem dentro dele. Schumacher, através das palavras e das atitudes de Bozz, tenta mostrar o Exército como uma grande mentira. Durante a trama, surgem situações em que os próprios superiores parecem reconhecer isso, o que pode ser observado sempre que Bozz se encontra a sós com eles: é como se ele forçasse a “verdade escondida” a vir à tona. Tigerland também tenta desmistificar a concepção de que o Exército transforma "meninos" em "homens", questionando os absurdos do treinamento. Há comentários na internet confirmando e negando os rigores, não se sabe se isso ocorreu de fato. No filme, os instrutores, com tom um tanto paternal, alegam que essa é a melhor forma possível de tentar preparar os jovens para o horror da guerra, enfocando o aspecto humano de todos os personagens. De relance, ainda surgem temas como o preconceito racial e o patriotismo.

No aspecto técnico, Tigerland tem uma cinematografia esmaecida, ligeiramente azul-esverdeada e obscura, com muitos closes. A trilha é discreta, mas toques dados por música soul ao bom estilo Motown aparecem aqui e ali. As atuações são muito boas, especialmente de Colin Farrell, no seu primeiro papel de destaque. Não espere combates, mas é um filme que, embora com tendências ideológicas evidentes, vale a pena por abordar a guerra no seu lugar de origem: o íntimo do ser humano.


Heber Costa

* No Vietnã, a média de idade dos soldados era de 22 anos; na Segunda Guerra, era 26 anos. [Fonte: Combat Area Casualty File – CACF (1993), que serviu de base para o Memorial de Veteranos do Vietnã.]

** Isso pode ser percebido no dialeto da infantaria usado pelos superiores, são expressões como grunt (soldado), gook (vietnamita), VC ou Charlie (vietcongue), dust-off (resgate de ferido em helicóptero) e beaucoup (muito, reminiscência dos colonizadores franceses incorporada pelo vietnamês).

*** Massacre, por tropas americanas, de mulheres e crianças ocorrido na aldeia vietnamita de My Lai, em 16 de março de 1968, que foi divulgado internacionalmente, causando revolta na população dos EUA e apressando sua saída da guerra.






*****************************************

Um Lugar Chamado Inferno

No início dos anos 1970 a Guerra do Vietnã estava em um período em que os americanos enfrentavam várias derrotas e a opinião pública “caia em cima” do alto escalão do exército e criticava as ordens do governo norte-americano. Mas por que isso acontecia e por que o grande exército americano não conseguia por um ponto final nessa guerra, seria o treinamento dos soldados ou a soberba do alto comando?

Podemos dizer que não há como se treinar alguém para matar outra pessoa, mas era esse o tipo de treinamento utilizado durante a Guerra do Vietnã. O envolvimento psicológico naquele conflito passou a ser um fator decisivo para o desfecho das batalhas. Nos campos de treinamento norte-americanos, os soldados eram transformados em verdadeiras máquinas de matar, cujo único objetivo era: aniquilar o seu inimigo. Os “milicos” que não conseguiram se “enquadrar” nesse perfil, eram taxados de molengas ou, muitas vezes, de não-patriotas; contudo, essa guerra não era deles e não acontecia em seu país. Assim começam a surgir questionamentos comuns aos combatentes quando vão para as guerras. Alguns dizem ser a única opção que têm, porém a maioria se questiona exatamente no momento de seu treinamento tentando achar uma justificativa para explicar a sua presença diante daquilo tudo.

O filme Tigerland trata exatamente dessa preparação do soldado americano para a Guerra do Vietnã, explorando a vivência de um grupo de soldados, ele procura trazer à tona os questionamentos dos combatentes a respeito da sua presença em um campo de treinamento, conhecido como inferno, e a relação que os soldados têm uns com os outros — muitas vezes, de companheirismo; outras, de intensas disputas pela liderança do pelotão. Analisá-lo, historicamente, requer conhecimentos apurados sobre campos de treinamentos, contudo pode-se dizer que ele exemplifica da forma mais dura a preparação dos soldados para irem ao verdadeiro inferno.



Adriano Almeida