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31 de mar. de 2009

O Resgate de Harrison

Título original: Harrison's Flowers
Direção: Elie Chouraqui
Elenco: Andie MacDowell, Adrien Brody, David Strathairn, Elias Koteas
País: França
Ano: 2000
Duração: 131 minutos
Língua: Inglês, servo-croata e francês
Nota IMDb: 7,2
Cores: Colorido







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O Amor contra a Guerra

O Resgate de Harrison foca em fotojornalistas cobrindo o conflito da Iugoslávia, mais especificamente a Guerra de Independência da Croácia (1991–1995). Essa premissa simples, no entanto, é transformada num filme com muitos recursos visuais, um bom elenco e efeitos especiais precisos.

Embora seja narrado sob várias perspectivas, a fita conta a história da família Lloyd, cujo pai, Harrison (David Strathairn), é fotógrafo. Após ser premiado com o Pullitzer, Harrison é mandado pela Newsweek para cobrir o conflito servo-croata, que a princípio pareciam ser “apenas escaramuças étnicas”, mas rapidamente se tornaram um extermínio de civis, inclusive inúmeros jornalistas. Acontece que Harrison é dado como morto, mas sua esposa, Sarah (Andie MacDowell), se recusa a acreditar e vai atrás dele.

Usando recursos de pseudo-entrevistas no estilo documentário, o perfil do casal Sarah e Harrison vai sendo construído e a história ganha vida. Os vários fotógrafos que estão no país em guerra acabam se vendo obrigados a ajudá-la. Entre eles, estão Adrien Brody (O Pianista), Brendan Gleeson (Harry Potter) e Elias Koteas (Além da Linha Vermelha), que ajudam a agregar veracidade à história.

Visualmente, o filme usa alguns recursos interessantes, como um plano-seqüência da frente de ataque croata, uso de imagem congelada para representar as fotografias, etc. Também ganha muitos pontos por utilizar as línguas dos Bálcãs e não aliviar os massacres ocorridos ali, o que poderia acabar minimizado os efeitos da política de genocídio do governo iugoslavo, que resultava em estupros e execuções em massa.

A parte “pirotécnica” é muito bem produzida, com explosões e balas traçantes próximas da câmera e muita destruição. Apesar disso, a produção comete erros primários de continuidade, como na maquiagem e troca de veículos (vale a pena observar o “TV” escrito no pára-brisa do carro: ele muda a cada tomada).

No geral, o resultado é bom. Além de ser bem-feito, o filme consegue reunir uma história de amor não totalmente inverossímil com a face mais grotesca da guerra. O diretor claramente se esforça para mostrar a Guerra da Iugoslávia com uma das mais caóticas e sangrentas da história, em que até os jornalistas pagaram com a vida.

Heber Costa


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Fragmentando uma nação

A dualidade e as disputas entre os países socialistas e capitalistas na Europa chegaram ao fim no início dos anos 1990, levando a um confronto ideológico entre as diversas etnias que compunham as nações adeptas do comunismo. Essa querela levou muitos países do Leste Europeu a se fragmentar, e esse processo acabou por gerar várias guerras civis. Sem dúvida alguma, a guerra entre croatas e sérvios foi a mais sangrenta de todas, com conflitos quase que constantes e muitas vezes sem fazer escolhas entre as vitimas — o filme O Resgate de Harrison nos dá uma boa dimensão dos combates em áreas civis e das baixas de não-militares ocorridas no transcorrer das batalhas.

Uma região cujo modelo de nação era basicamente submetido ao comunismo da União Soviética e da Alemanha Oriental e que recebia um grande apoio econômico se viu de uma hora para outra sem essa ajuda. Com o fim da “cortina de ferro”, as influências do mundo capitalista entraram de forma arrasadora no seio das classes dominantes e foram mais um atrativo para uma cisão da Iugoslávia em vários outros países como a Croácia, Bósnia, Sérvia e Montenegro.

Quando se pensava que as velhas rivalidades e antigos ódios estivessem sepultados por mais de quarenta anos de convívio de paz sob um regime comum, eis que se dá o conflito étnico-militar pela supremacia desse território. Com essa disputa, a Sérvia tinha a intenção de promover uma limpeza étnica e criar um Estado com uma esmagadora maioria de etnia sérvia. Uma guerra que durou dez anos e levou miséria a uma região onde ocorreram os principais acontecimentos da história antiga e da nossa contemporaneidade — vale lembrar que foi nessa região que aconteceu o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, o que levou ao início a Primeira Guerra Mundial.

O filme O Resgate de Harrison nos leva a ver a situação do território onde se deram as batalhas, mostra de uma forma bem clara a atuação dos repórteres mostrando ao mundo, quase que ao vivo, as atrocidades que uma guerra pode causar em uma população e as baixas não só dos envolvidos diretamente nas disputas, mas também daqueles foram lá para relatar os acontecimentos.

Adriano Almeida

25 de mar. de 2009

Salvador

Título original: Salvador
Direção: Oliver Stone
Elenco: James Woods, Jim Belushi, Michael Murphy, John Savage
País: Estados Unidos
Ano: 1986
Duração: 123 minutos
Língua: Inglês e espanhol
Nota IMDb: 7,5
Cores: Colorido







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Morte e Medo sob o Coturno da Repressão

Após a segunda metade do século XX, os EUA passaram a interferir mais diretamente na política interna dos países da América Latina. É nesse contexto que se passa o enredo de Salvador, dirigido por Oliver Stone, que saiu junto com o clássico Platoon e por isso acabou ofuscado.

O filme segue Richard Boyle, um fotojornalista porra-louca que precisava dar uma guinada na sua vida e na sua carreira, durante o tempo que ele passou em El Salvador no fim da década de 1970, início de 1980, quando o presidente Carlos H. Romero foi derrubado e começou uma verdadeira guerra civil entre as guerrilhas que já lutavam desde o início dos anos 1970 e a junta militar que subiu ao poder. No começo cauterizado por outras guerras, Boyle vai se sensibilizando com a situação do país, especialmente depois de se envolver amorosamente com uma salvadorenha e depois que a verdade sobre os massacres vai ficando cada vez mais escancarada. A situação chega a um ponto insustentável com o estupro e a execução de freiras americanas que prestavam ajuda humanitária na região.

Embora não seja nenhuma obra prima, muitas vezes sendo mais um retrato da viagem psicodélica de Boyle, Salvador tem o mérito de mostrar com crueza contundente o que ocorreu naquele pequeno país, denunciando também a relação dos americanos com os militares salvadorenhos. Embora tenha sido feito com um orçamento irrisório para padrões hollywoodianos (em torno de 2 milhões de dólares), as cenas de ação são bem feitas e a produção em geral é boa. O elenco, que contava com atores como James Woods, Jim Belushi e John Savage, consegue um bom desempenho, principalmente Woods, que foi responsável por uma das duas indicações ao Oscar que o filme recebeu (a outra foi Melhor Roteiro Adaptado).

No making-of, o embaixador americano em El Salvador à época, Robert White, interpretado (sob o nome fictício de Thomas Kelly) por Michael Murphy, embora negue que tenha tomado certas medidas mostradas em Salvador, comentou que o filme atinge o propósito de mostrar as estranhas relações entre militares salvadorenhos e americanos e questionar o financiamento de tais operações. Ele foi uma das testemunhas da acusação contra os assassinos das freiras. Mas esse foi apenas um dos inúmeros crimes humanitários cometidos em El Salvador.

Heber Costa

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Para que intervir?

Durante muito tempo os países da América Latina viveram sob influência dos blocos político-econômicos das décadas de 1980 e 1990 — capitalismo e socialismo. Essa dualidade gerou vários conflitos civis, em que frentes populares de esquerda duelavam com governos apoiados por países capitalistas. Em algumas nações a “ajuda” se dava por meio de investimentos financeiros e militares; em outros, a intervenção acontecia de forma mais direta; em certos casos, as duas coisas.

Intervenções eram comuns na América Latina durante as décadas de 60, 70 e 80, quando as ditaduras eram financiadas pelo capital e a logística de países do primeiro mundo, como os Estados Unidos. Isso acabava gerando guerras civis levando os países a uma verdadeira dependência econômica após o final dos conflitos.

Em El Salvador, aconteceu uma intervenção militar dos Estados Unidos durante a guerra civil que durou 12 anos, custando a vida de cerca de 75.000 pessoas — isso é bem mostrado no filme Salvador, que apesar de tratar de um caso particular explora muito bem o cotidiano da população salvadorenha no conflito armado entre o governo e a guerrilha de esquerda, organizada em torno da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN). Durante o tempo do conflito, as disputas entre os blocos socialistas e comunistas se mostraram bastante disformes, pois o governo de direita recebia um total apoio político e militar enquanto as guerrilhas de esquerda lutavam com armas ultrapassadas e precárias e praticamente não recebiam apoio militar dos comunistas dos países do primeiro mundo — União Soviética, por exemplo.

Essas situações foram muito bem exploradas por Oliver Stone em Salvador, um filme bem interessante do ponto de vista histórico, que mostra a disparidade entre as duas forças que duelavam — enquanto o governo atacava com tanques e aviões americanos os guerrilheiros investiam com cavalos. A guerra chegou ao fim em 1992, quando o governo e a guerrilha assinaram um tratado que levou a reformas militares e políticas.

Adriano Almeida

15 de mar. de 2009

Terra e Liberdade

Título original: Land and Freedom
Direção: Ken Loach
Elenco: Ian Hart, Rosana Pastor, Icíar Bollaín, Marc Martinez
País: Grã Bretanha, Espanha, Alemanha e Itália
Ano: 1995
Duração: 109 minutos
Língua: Inglês, espanhol e catalão
Nota IMDb: 7,5
Cores: Colorido





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Ideologia x Realidade

A Guerra Civil Espanhola (1936–1939) talvez só perca em obscuridade para a Guerra da Coréia. Mas esse conflito foi um prelúdio da formação do mundo que iria surgir após a Segunda Guerra, um mundo dividido entre países socialistas e capitalistas (resumindo de forma simplória). Ela também representou um grande avanço no fotojornalismo, o que possibilitou que a guerra mundial tivesse ampla cobertura e inúmeros registros visuais. Esse é o plano de fundo para os conflitos ideológicos trazidos à tona por Ken Loach neste ótimo Terra e Liberdade.

O filme conta a história de David, um membro do partido comunista na Irlanda que se vê desempregado e decide ir lutar ao lado dos republicanos, que recebiam voluntários e armas da União Soviética, do México e de movimentos comunistas internacionais, contra os franquistas, apoiados pela Alemanha nazista, a Itália fascista e o regime de Salazar, em Portugal. As condições de luta eram precárias e o treinamento era básico. No decorrer da trama, ele se apaixona por uma companheira de combate, mas suas visões a respeito dos rumos do conflito e das ações da liderança divergem, o que acabará acontecendo entre os próprios milicianos mais adiante. A cada aldeia libertada, surgem novos questionamentos sobre o lado prático da revolução, isto é, as questões agrárias e de propriedade, e isso acaba dividindo o movimento comunista. Na prática, parecia que a ideologia era outra. Era o choque da realidade com o idealismo.

O longa é uma ótima oportunidade de ver como se formaram as brigadas internacionais, que contaram com nomes ilustres em suas fileiras, como Ernest Hemingway, George Orwell e Antoine de Saint-Exupéry. No filme, as cenas de combate são esparsas, mas pode-se ver uma encarniçada guerra de trincheiras e alguns momentos de guerrilha urbana.

Enfim, além de um recorte da guerra e da vida de um combatente, Terra e Liberdade é também uma crônica que, sem apontar culpados nem criar teorias conspiratórias, mostra como o movimento republicano pode ter se esfacelado por dentro antes mesmo de sofrer a derrocada final pelas mãos dos partidários de Franco. O que não é nenhum absurdo considerando os conflitos de interesse que surgem dentro de qualquer grupo humano, ainda mais naqueles com motivação política. Vale a pena.

Heber Costa

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Uma guerra civil… mas com ideologia

Historicamente, a Espanha foi o último país da Europa a entrar na era moderna, isso fez com que o processo de transição da monarquia para a república se transformasse numa verdadeira disputa entre as ideologias de direita e esquerda que se proliferavam no velho continente antes da Segunda Guerra Mundial — nazismo na Alemanha, fascismo na Itália e o comunismo na União Soviética. Não seria nenhuma novidade que o choque entre essas idéias levaria a Espanha a uma guerra civil de propulsões continentais, visto que participaram das batalhas combatentes de várias outras nacionalidades: eles lutavam por seus ideais e não pela nação espanhola — o filme Terra e Liberdade conota esse fato de forma bastante consciente. Vale lembrar que, dos acontecimentos do entreguerras, o mais importante foi a Guerra Civil Espanhola.

O ambiente da Espanha antes do ano de 1936 era de instabilidade, pois a monarquia espanhola vivia da nostalgia de um passado imperial grandioso com as suas conquistas no novo continente e mantendo um contingente elevado de oficiais no exército. A igreja era herdeira do obscurantismo e intolerância do medievo e via a sua participação no governo cada vez mais diminuir. A economia foi o ponto principal para levar ao fim o antigo regime absolutista. Com a crise mundial de 1929, foi necessário encaminhar o país a um novo patamar, levá-lo a uma modernização que só seria possível com a instalação da república — é bem verdade que essa crise pouco atingiu país, mas ela foi de extrema importância, pois desencadeou uma crise entre as classes sociais espanholas.

Após a instalação da república houve um momento de profunda instabilidade, com vários assassinatos entre as lideranças políticas, o que levou, no dia 18 de julho de 1936, o General Francisco Franco a insurgir o Exército contra o governo republicano. Contudo, o golpe não foi bem-sucedido, pois nas principais cidades, como a capital Madri e Barcelona, o povo saiu às ruas e impediu a consolidação total do golpe. O país em pouco tempo ficou dividido em duas áreas distintas: uma nacionalista, dominada pelas forças de Franco, e outra republicana, controlada pelos esquerdistas (anarquistas e comunistas).

Nesse período, a Espanha se viu em meio a confrontos ideológicos não só de ordem inversa, mas também entre as ideologias que nasceram de uma mesma “mãe” e trilharam caminhos diferentes, como as vertentes stalinista, anarquista ou trotsquista — novamente isso é bem explorado em Terra e Liberdade, que basicamente traz como ponto-chave a disputa de legitimação entre os pró-revolução e os pró-república. Isso gerou uma crise entre os esquerdistas, o que acabou enfraquecendo a sua organização. Após essa situação, o desfecho da guerra era o que os nacionalistas esperavam, melhor equipados e com o apoio bélico da Alemanha e da Itália, o exército nacionalista avançou sobre os republicanos e, no dia 28 de março de 1939, puseram um ponto final na Guerra Civil Espanhola.

Adriano Almeida

15 de dez. de 2008

Os Gritos do Silêncio


Título original: The Killing Fields
Direção: Roland Joffé
Elenco: Sam Waterson, Haing S. Ngor, John Malkovitch
País: Grã Bretanha
Ano: 1984
Duração: 141 minutos
Língua: Inglês, francês e khmer
Nota IMDb: 8,0
Cores: Colorido
Trailer













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Os Campos da Morte

Grande sucesso nos anos oitenta — tanto por conta dos horrores mostrados como por ter a famosíssima Imagine, de John Lennon (morto em 1980), na sua trilha —, Os Gritos do Silêncio foi mais um da frutífera safra (iniciada com O Franco-atirador, em 1978, e terminada com Pecados de Guerra, em 1989) que aborda a atuação controversa dos EUA no Sudeste Asiático.

É o auge da Guerra Fria e o fim da Guerra do Vietnã, já na Era Nixon (que, a essa altura, estava atolado até o pescoço no Watergate). O repórter cambojano Dith Pran trabalha como intérprete para Sydney Schanberg, do New York Times, que tinha a missão de investigar as incursões americanas no Camboja. Paralelamente, esse país asiático vivia uma guerra pelo poder entre os governantes e o Khmer Vermelho, que vence a luta, já nos idos de 1975, e estabelece campos de reeducação — verdadeiros “campos da morte”, fato que inspirou o título original. É nesse contexto (entre três conflitos: o do Vietnã, a guerra civil no Camboja e um conflito entre os dois) que se passa a odisséia real de Schanberg (Sam Waterson) pela verdade e de Pran (Haing S. Ngor) pela sua própria vida.

Aqui, o cunho político é tão forte quanto o biográfico. Não são poucas as referências ao fornecimento de armas por parte dos EUA e da URSS, inclusive com cenas irônicas como a das tropas do governo, equipadas pelos americanos, festejando a entrada de soldados do Khmer em cima de
APCs na capital, Phnom Penh. É curioso também observar Schanberg, um típico americano, educado nos valores da liberdade, deparando-se com a censura e a repressão sem limites dos rebeldes, sem falar no alistamento de crianças e nas táticas terroristas de guerrilha, consideradas uma violação dos códigos de guerra do ponto de vista da cultura ocidental.

A despeito do sucesso, há uma crítica: o filme é um tanto confuso quando se trata do conflito como um todo. Algumas transmissões de rádio perdidas iluminam um pouco o caminho do espectador, mas no geral, é difícil entender o contexto político. Não há grandes destaques na parte técnica, mas destacam-se a trilha sonora (ainda que experimental demais às vezes) e os efeitos nas cenas de combate, ferimentos e destruição. A atuação de
Haing S. Ngor lhe rendeu um Oscar, o segundo para um ator não-profissional, algo que não acontecia desde 1946.

A vida de Ngor, aliás, é um caso à parte. Ele era um obstetra e oficial médico do exército cambojano que acabou
prisioneiro do Khmer Vermelho, foi torturado e perdeu a esposa grávida naqueles campos. Refugiou-se nos EUA e, em 1984, atuou em Os Gritos do Silêncio. Seu fim foi trágico: em 1996, foi assassinado na porta de sua garagem. A princípio, suspeitou-se do Khmer; depois, as investigações mostraram que foi um mero latrocínio.

O filme é quase unanimidade. Definitivamente, um ótimo retrato de um conflito que ainda tem muito a oferecer para aqueles que querem compreender a alma humana.





Heber Costa

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Influências Silenciosas

O Camboja foi por muito tempo colônia francesa. Isso influenciou o sistema de governo do país que levaria a uma guerra civil sem precedentes na história dessa nação. Essa guerra é bem retratada no filme Os Gritos do Silêncio, que apesar de tratar um caso particular de luta pela sobrevivência — a do jornalista cambojano Dith Pran ­— tem como pano de fundo os diversos acontecimentos que marcaram a vida da população cambojana.

A região da Indochina após a Segunda Guerra Mundial virou um lugar de instabilidade constante. Por estar muito próxima a países socialistas e por ter sido protetorado francês, a Indochina acabou ganhando uma extrema importância no campo da disputa política durante os anos da Guerra Fria. A esfera de influência dos países capitalistas e socialistas se expandia de forma rápida na Ásia Insular com a ascensão e desenvolvimento acelerado do Japão e a Revolução Cultural na China, fazendo com que os países próximos a eles entrassem — mesmo que sem querer — no meio de uma guerra trágica, cruel e “silenciosa”. Exemplos não faltam, porém os melhores são sem dúvida alguma o Vietnã e o Camboja. Com relação ao primeiro não há o que a acrescentar aqui, as imagens e relatos da guerra falam por si sós; contudo, o segundo mostra que a influência dos países capitalistas e socialistas foi mais nos “bastidores” do que no próprio “palco de guerra”.

Governantes severos e repressores mergulharam o Camboja em uma situação de instabilidade política depois da independência do país, que se aproximaria do mundo capitalista. Porém, sua proximidade a países socialistas — China e Rússia — e a fracassada investida norte-americana no Vietnã levaram os opositores do governo a organizarem uma resistência — Khmer vermelho. Inicialmente, o KV teria o apoio da população, porém com a sua chegada ao poder e a política de educação — por sinal bem retratada no filme — adotada levaram a população a um estado de miséria profunda, e o país quase acabou todas as suas indústrias, lembrando muito a época feudal daquela região. Seguidos golpes e alternância no governo só fizeram agravar a crise no país até os anos 1990, quando, com o enfraquecimento do bloco socialista e a assinatura de um acordo, se conseguiu certa estabilidade política — agora sem a interferência silenciosa da Guerra Fria, que levou à reorganização do país que foi massacrado por uma guerra de interesses que não eram dele.

Um dos pontos altos do filme Os Gritos do Silêncio é retratar o tratamento diferenciado dado pelo Khmer Vermelho aos estrangeiros — principalmente os franceses — durante a guerra civil, totalmente diferente do que era dado à população cambojana.
Adriano Almeida
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5 de dez. de 2008

Hotel Ruanda

Título original: Hotel Rwanda
Direção: Terry George
Elenco: Don Cheadle, Joaquim Phoenix, Nick Nolte
País: Grã Bretanha / Itália / EUA / África do Sul
Ano: 2004
Duração: 121 minutos
Língua: Inglês e francês
Nota IMDb: 8,4
Cores: Colorido
Trailer






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As Ruínas de Ruanda

Vários aspectos fazem de Hotel Ruanda um filme de que vale a pena tratar, mas vou citar apenas três: (1) nunca é demais expor os horrores da guerra, especialmente a guerra civil; (2) é um dos mais recentes conflitos transformados em filme; (3) é uma crítica à postura mundial quanto aos conflitos internos das nações, especialmente na África.

A história real de um pai, Paul Rusesabagina (Don Cheadle), que luta para proteger sua família é a premissa desse longa que mostra todas as etapas de uma turbulência até se transformar numa guerra civil. As guerras civis geralmente são muito violentas e não respeitam convenções internacionais sobre conflitos armados. Elas envolvem, muitas vezes, questões políticas, sociais e ódio racial, como foi o caso da disputa entre hutus e tutsis naquele país do sudeste da África.

Paul trabalha um hotel que é uma espécie de oásis em meio a um deserto de miséria e ódio: nada penetra aquelas paredes. Tentando manter-se alheio a tudo, Paul imerge num mundo que não é o seu (o do turismo, do comércio, do luxo), mas acaba sendo chamado à realidade quando explode a disputa civil pelo poder e as milícias passam a trucidar indivíduos da etnia oposta. Quando o território do hotel é violado, é o simbolismo de que nada ficará intocado. Nem a propriedade dos brancos estrangeiros.

O papel das forças de paz da ONU (como visto em Falcão Negro em Perigo) é limitado por uma série de convenções e burocracias que frustram as ações dos militares envolvidos: mesmo diante de fatos gritantes, as forças dependem de inúmeras formalidades e normas para agir. Em poucas palavras, o que parece haver é uma falta de vontade política pelo pouco interesse que Ruanda representa nas esferas internacionais.

Há também uma discussão interessante sobre como a cobertura da mídia plastifica esses acontecimentos, tornando-os digeríveis por mais cruas que sejam as imagens mostradas. E isso também é criticado no filme de Terry George. Nos aspectos visuais, o filme não apresenta nada de inovador, com um estilo quase documental em certos momentos. O destaque fica para a força da história e as brilhantes atuações.

Genocídio, sobrevivência, amor fraterno, política e mídia estão entre os temas abordados por esse filme que é, sem dúvida, uma sacudida na cabeça daqueles que vivem realidades completamente diferentes dos conflitos etnopolíticos da África.


Heber Costa


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Um por todos...

Após o término do domínio europeu na África os países recém-independentes caíram numa profunda instabilidade política, levando — em sua maioria — a guerras étnicas que, por sua vez, causaram a verdadeiros massacres por parte dos grupos dominantes. O melhor exemplo disso foi o genocídio ocorrido em Ruanda, onde milhares de tutsis foram mortos pelos hutus.

Desde a ocupação do país pela Bélgica, o grupo que teve privilégios políticos e econômicos foram os tutsis, que, por serem de etnia diferente dos hutus, praticaram uma severa repressão, muitas vezes violenta. Com a saída dos belgas, foi organizado um governo de transição para administrar o país, porém essa atitude não teve muito sucesso. Uma vez no poder a repressão só mudou de lado e dessa vez foi mais severa ainda. Em meio a todas as atrocidades, aparece um personagem que faria a diferença em toda a história de um dos países mais pobres do mundo — Paul Rusesabagina, que chegou até a ser comparado a Schindler.

A história que ocorre em Ruanda chega a ser parecida a de muitos outros países africanos, um continente cujas nações foram organizadas segundo os interesses dos países europeus, e não divididas conforme a etnias dos povos que ali habitavam. Um dos momentos mais interessantes na guerra civil de Ruanda foi a reação do resto do mundo ao que estava acontecendo ali: não foi dada a devida atenção à situação e as nações unidas só intervieram de forma superficial na matança que estava acontecendo, diferentemente situações de interferências ocorridas em outros países onde o "primeiro mundo" tinha interesses.

De forma geral, o filme Hotel Ruanda traz como uma critica severa à atitude dos países do bloco desenvolvido, que muitas vezes fecham os olhos para os problemas dos países mais pobres, e historicamente funciona como um relado do genocídio ocorrido, demonstrando como foi que se organizaram as milícias e a resistência em meio à miséria extrema daquele país.


Adriano Almeida
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25 de nov. de 2008

Falcão Negro em Perigo


Título original: Black Hawk Down
Direção: Ridley Scott
Elenco: Josh Harnett, Ewan McGregor, Orlando Bloom, Eric Bana
País: EUA
Ano: 2001
Duração: 144 minutos
Língua: Inglês e somali
Nota IMDb: 7,6
Cores: Colorido
Trailer









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Perdidos numa Guerra Civil

Em 1993, mesmo recém-saídos da Guerra do Golfo, os EUA tinham missões em vários países, entre eles Iugoslávia, Kenya, Haiti e Somália, onde colaboravam com uma força da ONU. Esta última é o teatro de operações do filme Falcão Negro em Perigo, inspirado no livro de Mark Bowden.

A missão mostrada no filme foi uma ação conjunta das forças americanas na capital Mogadíscio (basicamente de Deltas e Rangers, tropas da elite do exército) para capturar indivíduos-chave do grupo político de M. Aidid, um dos pivôs do conflito armado. A operação se complica quando um dos helicópteros Black Hawk é atingido por milícias e cai no meio da cidade. O plano inicial, que previa 30 minutos de ação, precisa ser alterado para resgatar os sobreviventes da queda. Com isso, as tropas americanas perdem o elemento-surpresa, e os soldados das milícias caem em cima. O resultado é um combate que segue até a manhã do outro dia e um saldo de vinte soldados americanos e mais de mil somalianos mortos.

Percebe-se, pelos equipamentos e funções (espionagem, invasão de prédios, etc.), que os Deltas agem mais como uma espécie de esquadrão tático (como a SWAT), enquanto os Rangers atuam com mais poder de fogo e força. É interessante observar a estratégia de guerra urbana e o moderno armamento. Os diálogos focam no jargão militar e em termos técnicos estratégicos, afora alguns momentos de diálogos constrangedores e discussões políticas não aprofundadas.

Em comparação com o livro, histórias de várias pessoas foram concentradas num só personagem fictício, como Grimes (Ewan McGregor). Sobre a história real dessa operação, vale a pena assistir o documentário homônimo do History Channel. Nele, é possível perceber que o fim de alguns americanos foi bem pior do que mostrado no filme: alguns foram despidos e arrastados, imagens que chocaram os norte-americanos. A verdade é que ninguém sabia bem o que os EUA estavam fazendo na Somália.

Tecnicamente, no entanto, Ridley Scott faz de Falcão Negro em Perigo um dos melhores filmes de guerra já produzidos. O uso de lentes especiais em várias tonalidades de cor, de filtros granulados e de tomadas inovadoras torna o filme interessantíssimo no aspecto visual, ficando um ponto negativo apenas para as gritantes falhas de continuidade na luz natural. A trilha oscila entre música do Oriente Médio e rock. Os efeitos são primorosos, e elenco está recheado de atores conhecidos e coadjuvantes de luxo. Um filme acima da média.



Heber Costa



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Intervir ou não intervir?


Uma das ações mais comuns na atualidade são as intervenções militares. Podemos falar que é uma nova forma de denominar as guerras, sendo os motivos que levam a tais ações os mais variados possíveis — vão desde as “em busca da ordem e da paz” até as “cruzadas contra o terror”. Nos anos 1990, tal ato era corriqueiro, uma prática aplicada pelos países europeus e os Estados Unidos às nações, principalmente, africanas, que estavam mergulhadas em guerras civis. Um das mais marcantes foi a intervenção na Somália entre 1992 e 1995.

A Somália é um país situado, estrategicamente, no nordeste do continente africano, geograficamente serve de ligação entre África e Ásia. Após passar por um duelo com a Etiópia e sair derrotada, a Somália entra em um período de profunda agitação social que levaria a uma guerra civil. Com uma política opositora e o pouco apoio que recebia da população, o governante somali se vê obrigado a deixar o poder em 1992, deixando o caminho aberto para as milícias disputarem a bombas e balas o controle do país. Nesse momento, a Organização das Nações Unidas (ONU) decide que seria necessária uma intervenção militar para garantir o bem-estar e a segurança da população somali e dos países vizinhos. Liderada pelos norte-americanos, a força de paz da ONU acaba não sendo bem recebida por uma boa parte da população, principalmente pelos lideres das milícias que acreditavam que aquela guerra não era dos dos brancos e que o único modo de estabelecer uma ordem era através da opressão dos outros grupos inimigos. Mogadíscio — capital da Somália — vira um verdadeiro barril de pólvora, uma zona hostil para qualquer um que não fizesse parte do grupo de que domina aquela região, e o malogro era só uma questão de tempo. O fracasso foi reconhecido em 1995 quando foram retiradas todas as tropas de paz da ONU que se encontravam no país.

Falcão Negro em Perigo é um bom filme que retrata a hostilidade por parte da maioria da população de Mogadíscio para com as forças de paz da ONU. Poderia ser apenas mais um filme de bombas e tiros, porém a forma como ele aborda a questão social e a relação de animosidade entre estrangeiros e nativos faz com que se tenha uma reflexão sobre a importância e forma como se fazem as chamadas intervenções militares na atualidade. Exemplos de insucesso é que não faltam em nossa história.




Adriano Almeida


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