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15 de mai. de 2009

Platoon

Título original: Platoon
Direção: Oliver Stone
Elenco: Charlie Sheen, William Dafoe, Tom Berenger, Forest Whitaker, Johnny Depp
País: Grã Bretanha e EUA
Ano: 1986
Duração: 120 minutos
Língua: Inglês e vietnamita
Nota IMDb: 8,2
Cores: Colorido






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Máquina de Moer Jovens

Já se falou muito do Vietnã, mas poucos souberam falar como Oliver Stone. A frase de abertura de Platoon, citando Eclesiastes, alerta os jovens para se regozijarem na sua juventude. Não é à toa: o Vietnã foi uma verdadeira máquina de transformar jovens em soldados, algo que transformaria suas vidas de uma forma irreversível — para o bem e para o mal. Como diz a frase no trailer: "Na guerra, a primeira a perecer é a inocência".

Escrito e dirigido por Stone, um veterano, o filme acompanha a caminhada dos chamados grunts, os soldados da infantaria do Exército Americano, desde sua chegada ao Vietnã até a morte ou o retorno para casa. O típico pelotão americano é retratado como um grupo heterogêneo, onde conflitos e questões como poder, racismo e ideologia emergem. A linguagem mista anglo-franco-vietnamita é o dialeto padrão, talvez uma das únicas coisas em comum entre eles. Ali, convivem e transparecem os humanistas, os psicopatas, os drogados, os brutais. O mais impressionante da caracterização desses tipos humanos é que não há maniqueísmos: não há bons nem maus, apenas soldados aliados ou inimigos. E eles são levados ao limite. Para lidar com isso, alguns incorporam a violência à sua personalidade; outros recorrem às drogas. Mas todos fumam… e muito. Aliás, o cigarro, hoje politicamente incorreto, é um dos “personagens” mais freqüentes nos filmes de guerra.

Do ponto de vista técnico, vale a pena ver retratadas as missões search & destroy, em que os grunts queimavam aldeias para prevenir que os vietcongs usassem; além disso, há também uma ação de um “rato de túnel”, um soldado treinado para entrar nos túneis e caçar vietcongs apenas com uma lanterna e uma pistola. A fotografia do filme é muito bonita e as músicas alternam hits da época com uma trilha instrumental fantástica (destaque para o tema principal).

O elenco é primoroso, formado por atores que já estavam em destaque na época ou alçaram vôo anos depois, como Charlie Sheen, Johnny Depp, Tom Berenger, William Dafoe e Forest Whitaker. Eles passaram por um campo de treinamento no bom estilo de Dale Dye (consultor de inúmeros filmes). A crueza de Nascido para Matar e a sensibilidade de Platoon (e o primor estético de ambos) certamente serviram de referência não somente para outros filmes do Vietnã, mas para muitos filmes de guerra que vieram depois.


Heber Costa


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Radicais Mudanças

Se existe uma coisa que é colocada à prova em tempo de guerra é o idealismo e a racionalidade das pessoas. Muitos dos soldados entram com um sentimento e saem com outro, alguns nem conseguem sair vivos da guerra. O sofrimento dos soldados muitas vezes acaba não sendo físico, mas, sim, psicológico.

Durante a Guerra do Vietnã, muitos combatentes americanos chegaram ao sudeste asiático com um ideal de trazer a liberdade e a democracia àquele lugar “provinciano”. Com o passar dos dias, meses e anos, esse pensamento se transformou de forma radical: a sociedade passou a combater de forma severa a participação norte-americana no conflito e os soldados passaram a repensar a sua situação, alguns até mesmo passaram por uma espécie de metamorfose e de idealistas se transformaram em verdadeiras máquinas de matar, que agiam muitas vezes sem pensar nas conseqüências de seus atos.

O filme Platoon traz à tona exatamente essa visão, em que um recruta cheio de idealismo passa a observar a guerra de um ponto de vista que não imagina que seria possível, e o seu pensamento passa a se modificar com as batalhas e as perdas de soldados.

Questões como essas sempre são responsáveis por mudanças nos caminhos das guerras. No caso do Vietnã, isso se tornou um problema para o governo do Estados Unidos, que começou a sofrer forte oposição da opinião publica, pedindo que fossem retirados os seus soldados daquele “inferno” —coisa parecida, porém com menor intensidade, ocorreu após a vitória contra o Iraque e no Afeganistão.

Historicamente, podemos indagar se quem participa de uma guerra traz consigo uma boa parcela de responsabilidade em seu desenvolvimento e se muitas vezes são os responsáveis para que o desfecho não seja de forma pacifica, pois normalmente estão interessados que elas se prolonguem para que possam se tornar grandes personagens desse triste evento.

Adriano Almeida


5 de mai. de 2009

Nascido Para Matar

Título original: Full Metal Jacket
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Matthew Modine, Adam Baldwin, Vincent D'Onofrio
País: Grã Bretanha e EUA
Ano: 1987
Duração: 116 minutos
Língua: Inglês e vietnamita
Nota IMDb: 8,3
Cores: Colorido







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A Guerra Que Não Acabou

Os fuzileiros navais (USMC) são conhecidos como uma das mais agressivas forças americanas. Seu treinamento extremamente rígido e seu condicionamento ideológico tornou-se alvo de polêmica. Essa elite terrestre das forças navais é a protagonista desse filme que é uma referência em termos de Guerra de Vietnã no cinema.

Baseado no livro de Gustav Hasford, Nascido para Matar é dividido em duas partes: o campo de treinamento e a guerra. A primeira parte retrata um treinamento brutal, que vem acompanhando de lavagem cerebral e humilhação. Até onde isso é verdade, ninguém sabe. Há argumentos que negam, outros que confirmam esse tipo de preparação para a guerra. Vê-se uma preocupação extrema em mostrar como se preparam os “assassinos” tanto filosófica quanto psicologicamente, mas desde o começo a ironia é um fator predominante: quando se trata de citar exemplos de bons fuzileiros, surge o nome de Charles Whitman (que matou 14 pessoas no Texas) e o de Lee Harvey Oswald. Um dos argumentos usados para provar que Oswald não poderia ter matado Kennedy (que ele atirou três vezes num carro em movimento em menos de 6 segundos) é justamente o que o sargento usa para provar o caráter super-humano dos marines. O comportamento do sargento-instrutor, aliás, é hilário de tão absurdo. Escatológico, ele mistura religiosidade e blasfêmia na tentativa de identificar quem são e o que fazem afinal os fuzileiros. Stanley Kubrick faz questão de debochar do sistema que engole tudo o que pode e vomita o que não absorve.

Há um corte abrupto entre as duas partes. A primeira termina com um choque, a segunda começa na placidez das ruas de Saigon. Há algumas pinceladas sobre as mentiras publicadas no Stars and Stripes (jornal das forças armadas) para levantar o moral das tropas. Aparece então a fantástica trilha sonora do filme, com clássicos dos anos 1960. Nessa segunda parte, é retratado um dos mais importantes acontecimentos históricos da guerra, que foi a
Ofensiva do Tet (30 de janeiro, ano-novo dos vietnamitas). Em 1968, os vietcongs armaram ataques coordenados em todo o país durante o Tet. Os alvos incluíram a embaixada americana em Saigon, a base dos fuzileiros em Khe Sahn e a cidade histórica de Hué. Embora não seja uma característica forte do filme, a ação começa na tentativa de repelir os ataques contra a base praieira de Da Nang (veja mapa) e depois segue a operação de retomada de Hué — esta última, uma das batalhas mais sangrentas da guerra. Usando na maior parte do tempo câmeras estáticas, Kubrick retrata ao seu modo a luta urbana nas ruas da cidade destroçada. Como alternativa à narração em off, ele usa um recurso de mise-en-abyme (um filme dentro do outro) para expor a opinião dos soldados, que àquela altura já tinham noção do rumo que a guerra tinha tomado.

No lado técnico, é impecável o uso do figurino, dos armamentos (note-se a evolução do M-14 nos treinos para o M-16 na guerra) e a reconstituição de operações e cenários. Já no conteúdo, ficam claras as críticas às políticas oficiais, à imprensa, aos aliados sul-vietnamitas e, claro, ao absurdo da guerra. Mesmo sendo uma superprodução, o filme não conta com nomes expressivos, exceto por Matthew Modine (onipresente nos anos 1980) e Adam Baldwin. Kubrick expressa em Nascido para Matar todo seu ressentimento para com uma guerra que para muitos nunca acabou.

Heber Costa

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Matar ou Enlouquecer

Entre os anos de 1959 e 1975 aconteceu uma das guerras mais comentadas da nossa contemporaneidade: a Guerra do Vietnã. Apesar de o conflito armado ter ocorrido no Sudeste Asiático, ele envolveu de forma muito contundente um país que se encontrava do outro lado do mundo — os Estados Unidos.

Muitos encaram a participação dos yankees com uma das muitas investidas infelizes na história das guerras, contudo existiam interesses mais importantes por trás da daquela intervenção militar, que seriam a primazia política e a econômica do Vietnã e a influência que isso poderia causar na região. Os americanos, porém, não mediram as implicações que tal ato teria na sua própria sociedade.

Entre as várias conseqüências, vale destacar a opinião pública com relação aos ocorridos com os soldados antes e durante a guerra, desde o seu alistamento até a sua forma de pensar durantes os combates — o filme Nascido Para Matar explora de forma muito clara os efeitos do treinamento severo e desumano que os fuzileiros navais norte-americanos passavam fazendo com que muitas vezes eles virassem verdadeiras máquinas de guerra, chegando à beira da loucura.

Essa loucura levou muitos jovens americanos à morte, pois achando que eram verdadeiros “deuses da guerra” os recrutas enfrentavam situações para as quais não estavam psicologicamente preparados, o que causou um número cada vez maior de baixas. Os que ficavam se dividiam em dois grupos distintos: os que encaravam a guerra como um “parque de diversões” e os que encaravam as batalhas com uma pergunta sem resposta: “por que estamos fazendo isso?” — novamente essa questão é bem explorada no filme. De baixa em baixa, começaram dentro dos Estados Unidos manifestações contra a guerra, o que levou a mudanças drásticas na forma de encarar a sua participação no conflito.

Sem dúvida alguma, o filme Nascido Para Matar é uma obra prima da filmografia sobre a história da Guerra do Vietnã, sua crítica sobre os fatos que vão da preparação até a atuação dos soldados nas batalhas são um “prato cheio” para se fazer uma análise do que é ir para a guerra.

Adriano Almeida

25 de mar. de 2009

Salvador

Título original: Salvador
Direção: Oliver Stone
Elenco: James Woods, Jim Belushi, Michael Murphy, John Savage
País: Estados Unidos
Ano: 1986
Duração: 123 minutos
Língua: Inglês e espanhol
Nota IMDb: 7,5
Cores: Colorido







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Morte e Medo sob o Coturno da Repressão

Após a segunda metade do século XX, os EUA passaram a interferir mais diretamente na política interna dos países da América Latina. É nesse contexto que se passa o enredo de Salvador, dirigido por Oliver Stone, que saiu junto com o clássico Platoon e por isso acabou ofuscado.

O filme segue Richard Boyle, um fotojornalista porra-louca que precisava dar uma guinada na sua vida e na sua carreira, durante o tempo que ele passou em El Salvador no fim da década de 1970, início de 1980, quando o presidente Carlos H. Romero foi derrubado e começou uma verdadeira guerra civil entre as guerrilhas que já lutavam desde o início dos anos 1970 e a junta militar que subiu ao poder. No começo cauterizado por outras guerras, Boyle vai se sensibilizando com a situação do país, especialmente depois de se envolver amorosamente com uma salvadorenha e depois que a verdade sobre os massacres vai ficando cada vez mais escancarada. A situação chega a um ponto insustentável com o estupro e a execução de freiras americanas que prestavam ajuda humanitária na região.

Embora não seja nenhuma obra prima, muitas vezes sendo mais um retrato da viagem psicodélica de Boyle, Salvador tem o mérito de mostrar com crueza contundente o que ocorreu naquele pequeno país, denunciando também a relação dos americanos com os militares salvadorenhos. Embora tenha sido feito com um orçamento irrisório para padrões hollywoodianos (em torno de 2 milhões de dólares), as cenas de ação são bem feitas e a produção em geral é boa. O elenco, que contava com atores como James Woods, Jim Belushi e John Savage, consegue um bom desempenho, principalmente Woods, que foi responsável por uma das duas indicações ao Oscar que o filme recebeu (a outra foi Melhor Roteiro Adaptado).

No making-of, o embaixador americano em El Salvador à época, Robert White, interpretado (sob o nome fictício de Thomas Kelly) por Michael Murphy, embora negue que tenha tomado certas medidas mostradas em Salvador, comentou que o filme atinge o propósito de mostrar as estranhas relações entre militares salvadorenhos e americanos e questionar o financiamento de tais operações. Ele foi uma das testemunhas da acusação contra os assassinos das freiras. Mas esse foi apenas um dos inúmeros crimes humanitários cometidos em El Salvador.

Heber Costa

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Para que intervir?

Durante muito tempo os países da América Latina viveram sob influência dos blocos político-econômicos das décadas de 1980 e 1990 — capitalismo e socialismo. Essa dualidade gerou vários conflitos civis, em que frentes populares de esquerda duelavam com governos apoiados por países capitalistas. Em algumas nações a “ajuda” se dava por meio de investimentos financeiros e militares; em outros, a intervenção acontecia de forma mais direta; em certos casos, as duas coisas.

Intervenções eram comuns na América Latina durante as décadas de 60, 70 e 80, quando as ditaduras eram financiadas pelo capital e a logística de países do primeiro mundo, como os Estados Unidos. Isso acabava gerando guerras civis levando os países a uma verdadeira dependência econômica após o final dos conflitos.

Em El Salvador, aconteceu uma intervenção militar dos Estados Unidos durante a guerra civil que durou 12 anos, custando a vida de cerca de 75.000 pessoas — isso é bem mostrado no filme Salvador, que apesar de tratar de um caso particular explora muito bem o cotidiano da população salvadorenha no conflito armado entre o governo e a guerrilha de esquerda, organizada em torno da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN). Durante o tempo do conflito, as disputas entre os blocos socialistas e comunistas se mostraram bastante disformes, pois o governo de direita recebia um total apoio político e militar enquanto as guerrilhas de esquerda lutavam com armas ultrapassadas e precárias e praticamente não recebiam apoio militar dos comunistas dos países do primeiro mundo — União Soviética, por exemplo.

Essas situações foram muito bem exploradas por Oliver Stone em Salvador, um filme bem interessante do ponto de vista histórico, que mostra a disparidade entre as duas forças que duelavam — enquanto o governo atacava com tanques e aviões americanos os guerrilheiros investiam com cavalos. A guerra chegou ao fim em 1992, quando o governo e a guerrilha assinaram um tratado que levou a reformas militares e políticas.

Adriano Almeida

15 de mar. de 2009

Terra e Liberdade

Título original: Land and Freedom
Direção: Ken Loach
Elenco: Ian Hart, Rosana Pastor, Icíar Bollaín, Marc Martinez
País: Grã Bretanha, Espanha, Alemanha e Itália
Ano: 1995
Duração: 109 minutos
Língua: Inglês, espanhol e catalão
Nota IMDb: 7,5
Cores: Colorido





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Ideologia x Realidade

A Guerra Civil Espanhola (1936–1939) talvez só perca em obscuridade para a Guerra da Coréia. Mas esse conflito foi um prelúdio da formação do mundo que iria surgir após a Segunda Guerra, um mundo dividido entre países socialistas e capitalistas (resumindo de forma simplória). Ela também representou um grande avanço no fotojornalismo, o que possibilitou que a guerra mundial tivesse ampla cobertura e inúmeros registros visuais. Esse é o plano de fundo para os conflitos ideológicos trazidos à tona por Ken Loach neste ótimo Terra e Liberdade.

O filme conta a história de David, um membro do partido comunista na Irlanda que se vê desempregado e decide ir lutar ao lado dos republicanos, que recebiam voluntários e armas da União Soviética, do México e de movimentos comunistas internacionais, contra os franquistas, apoiados pela Alemanha nazista, a Itália fascista e o regime de Salazar, em Portugal. As condições de luta eram precárias e o treinamento era básico. No decorrer da trama, ele se apaixona por uma companheira de combate, mas suas visões a respeito dos rumos do conflito e das ações da liderança divergem, o que acabará acontecendo entre os próprios milicianos mais adiante. A cada aldeia libertada, surgem novos questionamentos sobre o lado prático da revolução, isto é, as questões agrárias e de propriedade, e isso acaba dividindo o movimento comunista. Na prática, parecia que a ideologia era outra. Era o choque da realidade com o idealismo.

O longa é uma ótima oportunidade de ver como se formaram as brigadas internacionais, que contaram com nomes ilustres em suas fileiras, como Ernest Hemingway, George Orwell e Antoine de Saint-Exupéry. No filme, as cenas de combate são esparsas, mas pode-se ver uma encarniçada guerra de trincheiras e alguns momentos de guerrilha urbana.

Enfim, além de um recorte da guerra e da vida de um combatente, Terra e Liberdade é também uma crônica que, sem apontar culpados nem criar teorias conspiratórias, mostra como o movimento republicano pode ter se esfacelado por dentro antes mesmo de sofrer a derrocada final pelas mãos dos partidários de Franco. O que não é nenhum absurdo considerando os conflitos de interesse que surgem dentro de qualquer grupo humano, ainda mais naqueles com motivação política. Vale a pena.

Heber Costa

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Uma guerra civil… mas com ideologia

Historicamente, a Espanha foi o último país da Europa a entrar na era moderna, isso fez com que o processo de transição da monarquia para a república se transformasse numa verdadeira disputa entre as ideologias de direita e esquerda que se proliferavam no velho continente antes da Segunda Guerra Mundial — nazismo na Alemanha, fascismo na Itália e o comunismo na União Soviética. Não seria nenhuma novidade que o choque entre essas idéias levaria a Espanha a uma guerra civil de propulsões continentais, visto que participaram das batalhas combatentes de várias outras nacionalidades: eles lutavam por seus ideais e não pela nação espanhola — o filme Terra e Liberdade conota esse fato de forma bastante consciente. Vale lembrar que, dos acontecimentos do entreguerras, o mais importante foi a Guerra Civil Espanhola.

O ambiente da Espanha antes do ano de 1936 era de instabilidade, pois a monarquia espanhola vivia da nostalgia de um passado imperial grandioso com as suas conquistas no novo continente e mantendo um contingente elevado de oficiais no exército. A igreja era herdeira do obscurantismo e intolerância do medievo e via a sua participação no governo cada vez mais diminuir. A economia foi o ponto principal para levar ao fim o antigo regime absolutista. Com a crise mundial de 1929, foi necessário encaminhar o país a um novo patamar, levá-lo a uma modernização que só seria possível com a instalação da república — é bem verdade que essa crise pouco atingiu país, mas ela foi de extrema importância, pois desencadeou uma crise entre as classes sociais espanholas.

Após a instalação da república houve um momento de profunda instabilidade, com vários assassinatos entre as lideranças políticas, o que levou, no dia 18 de julho de 1936, o General Francisco Franco a insurgir o Exército contra o governo republicano. Contudo, o golpe não foi bem-sucedido, pois nas principais cidades, como a capital Madri e Barcelona, o povo saiu às ruas e impediu a consolidação total do golpe. O país em pouco tempo ficou dividido em duas áreas distintas: uma nacionalista, dominada pelas forças de Franco, e outra republicana, controlada pelos esquerdistas (anarquistas e comunistas).

Nesse período, a Espanha se viu em meio a confrontos ideológicos não só de ordem inversa, mas também entre as ideologias que nasceram de uma mesma “mãe” e trilharam caminhos diferentes, como as vertentes stalinista, anarquista ou trotsquista — novamente isso é bem explorado em Terra e Liberdade, que basicamente traz como ponto-chave a disputa de legitimação entre os pró-revolução e os pró-república. Isso gerou uma crise entre os esquerdistas, o que acabou enfraquecendo a sua organização. Após essa situação, o desfecho da guerra era o que os nacionalistas esperavam, melhor equipados e com o apoio bélico da Alemanha e da Itália, o exército nacionalista avançou sobre os republicanos e, no dia 28 de março de 1939, puseram um ponto final na Guerra Civil Espanhola.

Adriano Almeida

22 de fev. de 2009

Raposa do Deserto


Título original: The Desert Fox: The Story of Rommel
Direção: Henry Hathaway
Elenco: James Mason, Desmond Young, Leo G. Carroll, Jessica Tandy
País: Estados Unidos
Ano: 1951
Duração: 88 minutos
Língua: Inglês
Nota IMDb: 7,1
Cores: Preto e branco


Trailer




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A História de Erwin Rommel

Considerado um dos mais brilhantes estrategistas da história militar da Alemanha (talvez do mundo),
Erwin Rommel era também um homem de bom senso, um patriota e um cavalheiro. Pelo menos é isso que mostra o filme Raposa do Deserto, que narra um trecho da vida dessa ilustre figura da história mundial.

O filme começa com uma apresentação do personagem que será o narrador: o Tenente Coronel Desmond Young, que na vida real foi o autor da biografia de Rommel, que foi adaptada como roteiro por Nunnaly Johnson. Logo de início, há uma surpresa desagradável para os desavisados: o filme é em inglês. Isso é um fator que soma pontos negativos, pois sempre surgem aquelas cenas em que alemães e britânicos se encontram e trocam palavras como se não houvesse uma língua e uma cultura entre eles.

Afora esse detalhe, no todo o filme é muito bom. Além de retratar a postura nobre e a capacidade estratégica da “Raposa do Deserto”, concentra-se naquela que talvez tenha sido a mais decisiva campanha de sua vida: o plano para matar Hitler. A história desse plano e suas conseqüências já foram contadas em vários filmes, entre eles um batizado em português de Operação Valquíria, longa alemão (muito bem) produzido para a TV em 2004, cujo nome original é Stauffenberg, numa alusão ao nome do oficial que plantou a bomba na casamata de Hitler. Essa fita com certeza é a base do novo Operação Valquíria, com Tom Cruise.

Mas, voltando para Raposa do Deserto, ele explora o conflito ideológico enfrentado pelo marechal-de-campo alemão: cumprir seu dever de soldado e enfrentar a destruição ou pensar no bem da Alemanha como um todo e envolver-se numa traição. A história é muito bem contada ao estilo dos anos 1950, costurando imagens novas e registros reais da guerra no deserto norte-africano. Como na maioria dos filmes antigos, algumas montagens são constrangedoras e algumas atuações também (veja-se o Hitler). No elenco, há atores do nível de Jessica Tandy (Tomates Verdes Fritos, Cocoon e Conduzindo Miss Daisy) e vale também notar a presença do biógrafo Desmond Young como ele mesmo.

Mas James Mason (1909–1984) rouba a cena e empresta ao papel principal uma dignidade impressionante, fazendo o público praticamente esquecer que está vendo um ator britânico, e não alemão, na tela. Mason, aliás, estrelou clássicos como Lolita, Cyrano de Begerac e Madame Bovary. Em 1953, aceitou repetir o papel de Rommel no ótimo Ratos do Deserto, que conta a história das tropas australianas que demonstraram grande bravura contra os alemães no
Cerco de Tobruk, na Líbia, em 1941. Mas essa já é outra história do marechal-de-campo Erwin Johannes Eugen Rommel.

Heber Costa


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Bravo e destemido

No jogo de xadrez das campanhas de guerra, sempre os melhores homens conseguem sobressair: alguns pela sua perspicácia, outros pela sua coragem, muitos pela lealdade e companheirismo, porém poucos conseguem reunir todos esses pré-requisitos e, quando conseguem, marcam o sue nome na história das grandes batalhas. Um deles sem dúvida é Erwin Johannes Eugen Rommel.

Temido pelos seus adversários e venerado pelos seus comandados Rommel tornou a campanha no norte da África — durante a Segunda Guerra Mundial — em um campo de extrema estratégia e de uma disputa até hoje jamais vista. Armado com uma astúcia invejável e um senso de ataque que causava invídia, o marechal-de-campo levou o Afrika Korps a ser conhecido mundialmente. Apesar de toda a sua competência, a campanha no norte da África acabou não sendo vitoriosa. Inúmeros foram os motivos que levaram a tal fato — desde a falta de apoio logístico até a escassez de combatentes —, e isso fez com que Rommel voltasse para a Europa a pedido de Hitler para coordenar as defesas na França, Holanda, Bélgica e Dinamarca contra uma possível invasão aliada.

Um dos melhores relatos sobre a trajetória de Rommel é o filme Raposa do Deserto, titulo que faz alusão ao apelido que o major recebeu durante a campanha da África. O filme traz um relato marcante sobra a sua vida militar, abordando os problemas durante a campanha do Afrika Korps, passando pela conspiração contra o Führer, e chegando à sua morte — vale lembrar que após ser ferido na invasão da Normandia, Rommel foi hospitalizado e ali mesmo recebeu a noticia de que deveria decidir se iria ser julgado e provavelmente condenado junto com seus familiares ou optaria por ingerir veneno para suicidar-se, a opção escolhida foi a segunda.

Sem dúvida alguma naquele momento o mundo perderia uma das mais celebres mentes da guerra moderna, uma pessoa que independentemente do lado que estivesse seria um grande personagem na história da maior das guerras.

Adriano Almeida

8 de fev. de 2009

A Queda! – As Últimas Horas de Hitler



Título original: Der Untergang
Direção: Oliver Hirschbiegel

Elenco: Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, Christian Berkel, Juliane Köhler
País
: Alemanha, Itália e Áustria
Ano: 2005
Duração: 156 minutos
Língua: Alemão e russo
Nota IMDb: 8,4
Cores: Colorido







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Adeus, Hitler!

Baseado nas notas autobiográficas da secretária Traudl Junge, este filme aborda apenas uma parte da trajetória meteórica de Adolf Hitler no comando da Alemanha nazista. Grande parte dele se passa no bunker particular de Hitler e retrata o cotidiano de todos aqueles que faziam o trabalho burocrático ou prestavam aconselhamento a ele.

Considerado bastante polêmico por mostrar tanto seu lado imprevisível, autoritário e cruel quanto um lado mais humano e até agradável de Hitler, este A Queda é uma produção realmente digna de nota. Todos os detalhes, até onde se sabe, estão perfeitos. A fotografia é corretíssima, e aspectos como maquiagem, figurino, etc., são impecáveis. O fato de ser uma produção alemã agrega muito mais valor ao filme. Sente-se que o tema está sendo tratado com propriedade e que, ao mesmo tempo, expurga um desabafo dos alemães em relação a esse tema quase tabu.

Outro ponto de destaque é a atuação de Bruno Ganz, que interpreta o Führer com maestria tão grande que não há quem não se convença de que ele realmente estudou todos os cacoetes e as minúcias do comportamento e da personalidade de Hitler. Outros personagens importantes também estão muito bem caracterizados, como Himmler, Speer, Goebbels e Göring.

Enfim, dentro da linha de filmes biográficos, este certamente figuraria entre os três primeiros. Além de seu apuro estético, é um filme fantástico.

Heber Costa

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Um Louco no Comando

Os grandes momentos da história estiveram marcados pela presença de homens com o poder de alterar o resultado dos fatos — para melhor ou pior. É natural que nos momentos históricos aconteça uma procura de personagens para dar-lhes “vida”. Vilões e heróis surgiram e irão surgir no tempo histórico, alguns marcam a História de forma terrível e outros são tão extraordinários que é difícil não se sensibilizar com a sua trajetória de atos e vida.

A Queda – As Últimas Horas de Hitler procura expor os momentos finais da vida do líder nazista, explorando o lado mais íntimo do ditador, o filme mostra com eram inconstantes as atitudes do Führer. O homem por trás de toda a tragédia ocorrida na Europa tinha objetivos tão vis que suas decisões chegavam a ser ridículas e muitas vezes eram questionadas pelos seus próprios generais, que não entendiam como as ordens dadas por Hitler poderiam levar à Alemanha a vitória. Com uma rápida ascensão e sem ganhar uma eleição presidencial, Hitler obteve poder absoluto e apoio popular em pouquíssimo tempo. Ele tinha uma política muito centrada em levar a Alemanha a ser o centro do mundo e para isso transformou o país em uma grande indústria bélica, chegando a ter o maior poderio de guerra do mundo.

Um fator importante do filme é a relação de Adolf Hitler como os seus funcionários mais íntimos, eles nutriam uma admiração e lealdade tão extrema que chegava a ser algo doentio, endeusavam o seu líder e eram capazes que qualquer coisa para segui-lo. O tormento da Europa começa a chegar ao fim com a aproximação das tropas russas ao quartel general do ditador em Berlim, acuado ele não aceita a idéia de recuar ou fazer um acordo e ordena que os seus exércitos ataquem as tropas soviéticas, porem já era tarde demais para uma reviravolta, e o destino da Segunda Guerra estava traçado: o final do Führer foi o suicídio juntamente com uma boa parte de seus fiéis escudeiros.

Por se tratar, praticamente, de uma biografia de Traudl Junge, enquanto foi secretaria de Hitler — A Queda – As Últimas Horas de Hitler — é um ótimo apoio didático para ser utilizados em sala de aula e um excelente e esclarecedor filme para os interessados nos personagens de guerra.

Adriano Almeida

5 de dez. de 2008

Hotel Ruanda

Título original: Hotel Rwanda
Direção: Terry George
Elenco: Don Cheadle, Joaquim Phoenix, Nick Nolte
País: Grã Bretanha / Itália / EUA / África do Sul
Ano: 2004
Duração: 121 minutos
Língua: Inglês e francês
Nota IMDb: 8,4
Cores: Colorido
Trailer






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As Ruínas de Ruanda

Vários aspectos fazem de Hotel Ruanda um filme de que vale a pena tratar, mas vou citar apenas três: (1) nunca é demais expor os horrores da guerra, especialmente a guerra civil; (2) é um dos mais recentes conflitos transformados em filme; (3) é uma crítica à postura mundial quanto aos conflitos internos das nações, especialmente na África.

A história real de um pai, Paul Rusesabagina (Don Cheadle), que luta para proteger sua família é a premissa desse longa que mostra todas as etapas de uma turbulência até se transformar numa guerra civil. As guerras civis geralmente são muito violentas e não respeitam convenções internacionais sobre conflitos armados. Elas envolvem, muitas vezes, questões políticas, sociais e ódio racial, como foi o caso da disputa entre hutus e tutsis naquele país do sudeste da África.

Paul trabalha um hotel que é uma espécie de oásis em meio a um deserto de miséria e ódio: nada penetra aquelas paredes. Tentando manter-se alheio a tudo, Paul imerge num mundo que não é o seu (o do turismo, do comércio, do luxo), mas acaba sendo chamado à realidade quando explode a disputa civil pelo poder e as milícias passam a trucidar indivíduos da etnia oposta. Quando o território do hotel é violado, é o simbolismo de que nada ficará intocado. Nem a propriedade dos brancos estrangeiros.

O papel das forças de paz da ONU (como visto em Falcão Negro em Perigo) é limitado por uma série de convenções e burocracias que frustram as ações dos militares envolvidos: mesmo diante de fatos gritantes, as forças dependem de inúmeras formalidades e normas para agir. Em poucas palavras, o que parece haver é uma falta de vontade política pelo pouco interesse que Ruanda representa nas esferas internacionais.

Há também uma discussão interessante sobre como a cobertura da mídia plastifica esses acontecimentos, tornando-os digeríveis por mais cruas que sejam as imagens mostradas. E isso também é criticado no filme de Terry George. Nos aspectos visuais, o filme não apresenta nada de inovador, com um estilo quase documental em certos momentos. O destaque fica para a força da história e as brilhantes atuações.

Genocídio, sobrevivência, amor fraterno, política e mídia estão entre os temas abordados por esse filme que é, sem dúvida, uma sacudida na cabeça daqueles que vivem realidades completamente diferentes dos conflitos etnopolíticos da África.


Heber Costa


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Um por todos...

Após o término do domínio europeu na África os países recém-independentes caíram numa profunda instabilidade política, levando — em sua maioria — a guerras étnicas que, por sua vez, causaram a verdadeiros massacres por parte dos grupos dominantes. O melhor exemplo disso foi o genocídio ocorrido em Ruanda, onde milhares de tutsis foram mortos pelos hutus.

Desde a ocupação do país pela Bélgica, o grupo que teve privilégios políticos e econômicos foram os tutsis, que, por serem de etnia diferente dos hutus, praticaram uma severa repressão, muitas vezes violenta. Com a saída dos belgas, foi organizado um governo de transição para administrar o país, porém essa atitude não teve muito sucesso. Uma vez no poder a repressão só mudou de lado e dessa vez foi mais severa ainda. Em meio a todas as atrocidades, aparece um personagem que faria a diferença em toda a história de um dos países mais pobres do mundo — Paul Rusesabagina, que chegou até a ser comparado a Schindler.

A história que ocorre em Ruanda chega a ser parecida a de muitos outros países africanos, um continente cujas nações foram organizadas segundo os interesses dos países europeus, e não divididas conforme a etnias dos povos que ali habitavam. Um dos momentos mais interessantes na guerra civil de Ruanda foi a reação do resto do mundo ao que estava acontecendo ali: não foi dada a devida atenção à situação e as nações unidas só intervieram de forma superficial na matança que estava acontecendo, diferentemente situações de interferências ocorridas em outros países onde o "primeiro mundo" tinha interesses.

De forma geral, o filme Hotel Ruanda traz como uma critica severa à atitude dos países do bloco desenvolvido, que muitas vezes fecham os olhos para os problemas dos países mais pobres, e historicamente funciona como um relado do genocídio ocorrido, demonstrando como foi que se organizaram as milícias e a resistência em meio à miséria extrema daquele país.


Adriano Almeida
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25 de out. de 2008

Tigerland – A Caminho da Guerra

Título original: Tigerland
Direção: Joel Schumacher
Elenco: Colin Farrell, Matthew Davis, Clifton Collins Jr., Shea Whigham, Nick Searcy
País: EUA
Ano: 2000
Duração: 100 minutos
Língua: Inglês
Nota IMDb: 7,1
Cores: Colorido
Trailer









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Máquina de Fazer Soldados

Fort Polk, Louisiana, 1971. Os recrutas Roland Bozz (Colin Farrell) e Jim Paxton (Matthew Davis) vão para o treinamento nos últimos anos da Guerra do Vietnã (1959–1975), pelo menos para os EUA, que só participaram de 1965 a 1973. Os jovens* já estavam sendo treinados por veteranos** do Vietnã. A revolução sexual atingia seu ápice, e as drogas estavam em alta. A guerra não tinha mais apoio da opinião pública, especialmente por conta de fatos como o Massacre de My Lai***, mencionado por Paxton. Nesse contexto, o Exército era uma bolha de realidade diametralmente diferente do que ocorria ao seu redor. Bozz, que antes aparenta apenas não respeitar autoridades, mostra-se anti-Exército e tenta sabotar ideologicamente o sistema insubordinando-se a cada instante; enquanto Paxton é um voluntário que acredita no cumprimento do dever, embora concorde com o amigo quanto ao Exército não ser uma massa uniforme de homens e a guerra não ter sentido.

Tigerland tem intenções claras de expor falhas no discurso do Exército — como a idéia de que é “um só homem”, um corpo único e homogêneo — justamente mostrando os conflitos ideológicos que existem dentro dele. Schumacher, através das palavras e das atitudes de Bozz, tenta mostrar o Exército como uma grande mentira. Durante a trama, surgem situações em que os próprios superiores parecem reconhecer isso, o que pode ser observado sempre que Bozz se encontra a sós com eles: é como se ele forçasse a “verdade escondida” a vir à tona. Tigerland também tenta desmistificar a concepção de que o Exército transforma "meninos" em "homens", questionando os absurdos do treinamento. Há comentários na internet confirmando e negando os rigores, não se sabe se isso ocorreu de fato. No filme, os instrutores, com tom um tanto paternal, alegam que essa é a melhor forma possível de tentar preparar os jovens para o horror da guerra, enfocando o aspecto humano de todos os personagens. De relance, ainda surgem temas como o preconceito racial e o patriotismo.

No aspecto técnico, Tigerland tem uma cinematografia esmaecida, ligeiramente azul-esverdeada e obscura, com muitos closes. A trilha é discreta, mas toques dados por música soul ao bom estilo Motown aparecem aqui e ali. As atuações são muito boas, especialmente de Colin Farrell, no seu primeiro papel de destaque. Não espere combates, mas é um filme que, embora com tendências ideológicas evidentes, vale a pena por abordar a guerra no seu lugar de origem: o íntimo do ser humano.


Heber Costa

* No Vietnã, a média de idade dos soldados era de 22 anos; na Segunda Guerra, era 26 anos. [Fonte: Combat Area Casualty File – CACF (1993), que serviu de base para o Memorial de Veteranos do Vietnã.]

** Isso pode ser percebido no dialeto da infantaria usado pelos superiores, são expressões como grunt (soldado), gook (vietnamita), VC ou Charlie (vietcongue), dust-off (resgate de ferido em helicóptero) e beaucoup (muito, reminiscência dos colonizadores franceses incorporada pelo vietnamês).

*** Massacre, por tropas americanas, de mulheres e crianças ocorrido na aldeia vietnamita de My Lai, em 16 de março de 1968, que foi divulgado internacionalmente, causando revolta na população dos EUA e apressando sua saída da guerra.






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Um Lugar Chamado Inferno

No início dos anos 1970 a Guerra do Vietnã estava em um período em que os americanos enfrentavam várias derrotas e a opinião pública “caia em cima” do alto escalão do exército e criticava as ordens do governo norte-americano. Mas por que isso acontecia e por que o grande exército americano não conseguia por um ponto final nessa guerra, seria o treinamento dos soldados ou a soberba do alto comando?

Podemos dizer que não há como se treinar alguém para matar outra pessoa, mas era esse o tipo de treinamento utilizado durante a Guerra do Vietnã. O envolvimento psicológico naquele conflito passou a ser um fator decisivo para o desfecho das batalhas. Nos campos de treinamento norte-americanos, os soldados eram transformados em verdadeiras máquinas de matar, cujo único objetivo era: aniquilar o seu inimigo. Os “milicos” que não conseguiram se “enquadrar” nesse perfil, eram taxados de molengas ou, muitas vezes, de não-patriotas; contudo, essa guerra não era deles e não acontecia em seu país. Assim começam a surgir questionamentos comuns aos combatentes quando vão para as guerras. Alguns dizem ser a única opção que têm, porém a maioria se questiona exatamente no momento de seu treinamento tentando achar uma justificativa para explicar a sua presença diante daquilo tudo.

O filme Tigerland trata exatamente dessa preparação do soldado americano para a Guerra do Vietnã, explorando a vivência de um grupo de soldados, ele procura trazer à tona os questionamentos dos combatentes a respeito da sua presença em um campo de treinamento, conhecido como inferno, e a relação que os soldados têm uns com os outros — muitas vezes, de companheirismo; outras, de intensas disputas pela liderança do pelotão. Analisá-lo, historicamente, requer conhecimentos apurados sobre campos de treinamentos, contudo pode-se dizer que ele exemplifica da forma mais dura a preparação dos soldados para irem ao verdadeiro inferno.



Adriano Almeida




15 de out. de 2008

Santos ou Soldados


Título original: Saints and Soldiers
Direção: Ryan Little
Elenco: Corbin Allred, Alexander Polinsky, Peter Holden, Lawrence Bagby, Kirby Heyborne
País: EUA
Ano: 2003
Duração: 90 minutos
Língua: Inglês / Francês / Alemão
Nota IMDb: 7,0
Cores: Colorido
Trailer





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Santos, Soldados e Sombras

Santos ou Soldados se passa num fato histórico trágico: o Massacre de Malmedy, Bélgica, ocorrido na campanha das Ardenas, no rigoroso inverno de dezembro de 1944. Quatro soldados — o cabo “Deacon”, o sargento Gunderson, o paramédico Gould e o soldado Kendrick — conseguem escapar das tropas da Waffen-SS*, tomando um rifle Mauser Kar98k (cuja capacidade é só cinco tiros), e adentrar a floresta nevada.

Logo surgem outros inimigos: não bastasse o frio, o medo e o fato de virem de diferentes partes do país (Nova York, Arizona, Louisiana e Illinois) e do exército (dois são da 101ª Aerotransportada; um, médico; e Kendrick, da infantaria), as crenças e personalidades acirram ainda mais diferenças. Oriundo do Brooklin, Gould provavelmente teve uma infância difícil, o que explica individualismo e ceticismo e o fato de roubar dos mortos. Ele se desentende com Deacon, um interiorano muito religioso que dá mostras de um forte estresse pós-traumático. Tudo se complica ainda mais quando o grupo encontra o sarcástico Winley, um sargento-aviador da Força Aérea Britânica que tem uma missão importantíssima. O longa aborda muito bem conflitos como sobrevivência x dever; desumanização x crença no ser humano; mesquinharia x generosidade; religiosidade x ceticismo; personificando essas crenças nos personagens. Os soldados, tendo de enfrentar os alemães e essa “guerra” particular, fortalecem seus laços e transformam a visão de mundo uns dos outros.

A produção não tem grandiosidades, mas é muito caprichada. Os atores, embora desconhecidos, são muito competentes. A fidelidade de detalhes e equipamentos corretos impressiona — a exemplo do coração no capacete do sargento, que representa o 2º Batalhão do 502º Regimento da 101ª, que realmente atuou nas Ardenas. A trilha sonora discreta e a fotografia ligeiramente descolorida e ágil são a moldura perfeita para transformar esse conjunto num ótimo filme.



Heber Costa





* Pela época e uniformes retratados no filme, as tropas de panzergrenadiers ali representadas provavelmente eram da 1ª divisão de Panzers da SS (Schultz Staffeln, isto é, “esquadrões de proteção") — apelidada Leibstandarte Adolf Hitler (Guarda-costas de Adolf Hitler) — e estariam sob o comando do SS-Standartenfürher (Coronel) Joachim Peiper, que comandava um Kampfgrouppe de tanques Panzers e Tigers.




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Roteiro da morte: Malmedy & Bastogne

Ao se aproximar o final do ano de 1944, a situação na Europa se encontrava bastante instável, e o controle de pontos estratégico era vital para o sucesso nas batalhas. Um dos momentos mais tensos desse período foi a disputa pelo controle da região das Ardenas (Malmedy, Saint Vith, Houffaliza e Bastogne), por conta de dois acontecimentos que marcaram a guerra: o Massacre de Malmedy e a Batalha de Bastogne.

Contando com um forte contingente de soldados e blindados, os alemães partem em direção a essa região por se tratar de um ponto de convergência estratégica. A intenção era tomar de assalto as quatro cidades e depois seguir em direção a Antuérpia, contudo nesse caminho ocorreu o encontro das tropas aliadas com o exército alemão — em Malmedy —, ali os soldados americanos se tornaram prisioneiros e num ato de extrema pusilanimidade foram quase todos executados. O filme Santos ou Soldados parte desse evento para explorar a convivência de um grupo de soldados que consegue escapar dessa chacina — em especial a de “Deacon”. Passando por questionamentos comuns aos soldados — num momento em que não estão travando batalhas —, ele se pergunta se está fazendo certo em matar os seus inimigos e às vezes até civis em troca de sua sobrevivência.

Vale destacar também a Batalha de Bastogne onde milhares de soldados perderiam a vida. O empenho tanto dos alemães em conquistar essa cidade quanto os aliados em defendê-la foi colossal, pois eles não lutavam somente entre si, mas também pra suportar o inverno e as fortes nevascas sem padecer diante de tal intempérie. Só foi possível dar um ritmo a batalha após o término das tempestades de neve, pois é nesse momento que as esquadrilhas aéreas entram em ação e ditam o compasso da vitória aliada. Santos ou Soldados pode ser considerado um bom entretenimento para os fãs de filmes de guerra e, como fonte histórica, pode servir de um bom apoio didático para observar a situação climática que os soldados enfrentavam, além de usar como pano de fundo o terrível episódio do Massacre de Malmedy.



Adriano Almeida




5 de out. de 2008

Sem Novidade no Front

Título original: All Quiet on The Western Front
Diretor: Lewis Milestone
Elenco: Lew Ayres, Louis Wolheim, Slim Summerville
País: EUA
Ano: 1930
Duração: 135 minutos
Língua: Inglês / Francês / Alemão

Nota IMDb: 8,1
Cores: Preto-e-branco

Trailer













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Viver e morrer no front

O impacto psicológico que um soldado passa ao entrar numa guerra é sem dúvida uma das coisas mais importantes, principalmente porque pode mudar o rumo de toda a disputa. O filme Sem Novidade no Front tem o cuidado de mostrar o cotidiano do front, a vida dos soldados na Primeira Guerra Mundial, tentando evidenciar os vários sentimentos que os jovens combatentes sentiram durante o conflito, desde a euforia de estar participando da primeira batalha até as incertezas da vida nas trincheiras.

Algumas passagens são dignas de serem mencionadas não só pela sua importância como acontecimento na história, mas principalmente pelo fato de tentarem retratar a situação precária e subumana das trincheiras. Posso destacar três dentre os vários momentos importantes: o primeiro seria o alistamento, quando os jovens estão eufóricos após um discurso incentivador de seu professor. Isso mostra como os garotos eram educados nos primeiros anos da Guerra. Havia um grande incentivo para que participassem e demonstrassem o seu patriotismo. O segundo momento seria o impacto que a guerra causa nos homens — a primeira batalha —, quando a moral dos soldados é posta à prova, deixando visível o medo da morte iminente e as incertezas do futuro que os aguarda. No terceiro instante, destaca-se a reação do soldado ao voltar para casa e visitar a escola, encontrando ali um ambiente pouco acolhedor: ele não se sente membro daquele lugar e, ao ouvir o velho discurso de seu antigo mestre, que há alguns anos serviu de inspiração para que ele e seus amigos se empenhassem naquela jornada, fica incrédulo com tudo aquilo que os civis acreditavam estar acontecendo no front.

Fatos como esses nos levam a analisar, criteriosamente, o que é relatado sobre o dia-a-dia dos soldados na Primeira Guerra, pois muitas fontes não dão o valor necessário ao cotidiano do campo de batalha, e Sem Novidade no Front expressa, de forma bem peculiar, a árdua vida no front.



Adriano Almeida



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A vida nas trincheiras e a desilusão da guerra

Considerado um dos mais fortes manifestos pacifistas, Sem Novidade no Front mostra, desde as primeiras cenas, os sentimentos que dominavam a mente da população na época: o patriotismo, a honra, o orgulho e o senso de dever. A disparidade entre essa idealização da guerra e a realidade é sem dúvida o tema mais forte do filme, que mostra a inutilidade dos ataques e o quanto os soldados padeciam de fome, frio e terror sob os bombardeios — ou, como diz o protagonista, “... o quanto morrer pela pátria é sujo e doloroso”. Enquanto os professores incitam jovens à guerra, no front os soldados descobrem que, sem a farda, seus inimigos são iguais a eles: querem apenas sobreviver mais um dia. A morte choca não pela violência, mas pela sua banalidade e freqüência. Isso fica explícito na ironia do par de botas que passa de pés em pés, durando mais do que os próprios soldados que o utilizam.

O roteiro adaptado altera a ordem de alguns fatos do texto original, o que deixa a trama um tanto truncada. Por outro lado, dados os recursos da época (1930), Lewis Milestone é um poço de criatividade quando se trata de fotografia e efeitos especiais. O uso de uma câmera não-estática passando por trás das metralhadoras alemãs e francesas nas cenas em que os soldados são dizimados e acompanhando os soldados nos ataques e contra-ataques traz um dinamismo impressionante às seqüências. Essa habilidade de filmar, somada aos efeitos, constrói imagens de causar inveja a muitos filmes de guerra recentes.




Como nem tudo é perfeito, cabe ressaltar como pontos negativos que algumas atuações são um pouco exageradas (o que era natural na época) e também o fato de ser uma obra sobre soldados alemães, mas ser majoritariamente falada em inglês, já que é produção americana. A despeito disso, o resultado é um longa poderoso e extremamente inovador, que se tornou um marco, sendo proibido em vários países. No fim, uma mensagem fica clara: a guerra é uma grande ilusão.



Heber Costa